Padre Tomás Pereira de Araújo (1809–1893) inscreve-se entre as figuras mais influentes da história de Acari e do Seridó oitocentista. Nascido em 1809, era filho de Antônio Pereira de Araújo e Maria José de Medeiros, descendendo de linhagens tradicionais da região: pelo lado paterno, era neto de João Damasceno Pereira e Maria dos Santos de Medeiros; pelo lado materno, neto de Tomás de Araújo Pereira e Teresa de Jesus. Entre seus irmãos, destacaram-se Ana Marcolina de Jesus, afamadamente conhecida como “Aninha do Ingá”, e Porphíria Alexandrina de Jesus, que se uniu em matrimônio a Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior.
Sacerdote de vocação, mas também homem de ação, o Padre Tomás desempenhou papel decisivo na conformação religiosa e política do Seridó. Foi ele o idealizador e construtor da Igreja Matriz de Acari, monumento que se tornaria marco arquitetônico e expressão perene da religiosidade local. No âmbito da vida pública, sua influência estendeu-se além do púlpito: exerceu quatro legislaturas como Deputado Provincial, revelando liderança e prestígio numa época em que a política sertaneja se imbricava profundamente com as relações familiares e com a autoridade eclesiástica.
Embora ordenado sacerdote, deixou numerosa descendência, amplamente documentada no Livro de Escrituras n.º 1 do Cartório de Acari. De sua união com Maria Custódia do Amor Divino, nasceram Jesuína (ou Jercina) Maria de Jesus e Theodora Maria de Jesus. Com Joaquina Senhorinha da Conceição, teve Maria Senhoria da Conceição. De Antônia Maria da Conceição, vieram ao mundo Manoel Maria de Santana, Maria Inácia da Guia e Ana Maria da Guia. Da indígena Margarida, nasceram Teresa Maria de Jesus e Maria Teresa de Jesus, além de Leonila Rosalina de Jesus, conhecida como Nila, nascida em 31 de dezembro de 1874, que se estabeleceu na Serra da Garganta e deu origem a extensa descendência em Florânia, Triunfo Potiguar, Açu e Mossoró. Da escrava Paula, o Padre Tomás foi pai de Lourença de Jesus.
A linhagem do sacerdote espraiou-se amplamente pelas gerações seguintes. Jesuína casou-se com Joaquim Cesar, e Theodora, com José Galdino, união que gerou numerosa descendência, entre a qual se destaca Rita de Araújo Silva, sua bisneta. Também ganhou relevo familiar o curioso epíteto de “Os Tacacas”, atribuído à prole oriunda de sua relação com Maria Custódia do Amor Divino. Segundo a tradição oral, Maria Custódia — mulher de pele clara, elegante, sempre bem vestida e perfumada — causava certa estranheza entre algumas senhoras da sociedade acariense. Em tom jocoso, passaram a referir-se a ela como “a Tacaca do Padre”, alcunha que se perpetuou entre seus descendentes.
O percurso vital do Padre Tomás Pereira de Araújo revela, assim, a complexidade social, cultural e política do Seridó do século XIX. Em sua figura convergem os fios que tecem a história regional: a força das tradições familiares, a autoridade espiritual, a atuação na vida pública e a ampla descendência que se espalhou por toda a região. Seu legado permanece entranhado na memória de Acari e na formação histórica do povo seridoense, compondo um dos capítulos mais singulares de sua experiência coletiva.
Thomaz Pereira de Araújo, nascido a 14 de janeiro de 1809 e falecido em 13 de dezembro de 1893, foi uma das figuras mais complexas, influentes e contraditórias do Seridó oitocentista, no interior do Rio Grande do Norte, onde se projetou simultaneamente como sacerdote, político, chefe de família poderosa e personagem de intensos conflitos morais. Filho de Antônio Pereira de Araújo e de Maria José de Medeiros, cresceu no seio de uma linhagem que concentrava terras, prestígio e mando, tendo como avô materno Thomaz de Araújo Pereira, primeiro presidente da Província do Rio Grande do Norte, homem de larga autoridade em Acari e principal responsável por direcionar o neto à carreira sacerdotal, custeando-lhe os estudos e abrindo-lhe caminhos num mundo em que parentesco e poder se confundiam. Cercado por numerosos irmãos e irmãs, Thomaz desde cedo foi preparado para ocupar lugar de relevo numa sociedade hierarquizada, marcada pela pecuária, pela devoção católica e pela política de compadres.
Sua formação intelectual iniciou-se na Escola de Latim do padre Francisco de Brito Guerra, em Caicó, instituição criada para lapidar os filhos das elites sertanejas e fortemente influenciada pelas ideias ilustradas que começavam a circular pelo Brasil. Ali destacou-se como discípulo aplicado e protegido do mestre, absorvendo uma visão de mundo que conciliava fé, razão e pragmatismo social. Em 1826 seguiu para o Seminário de Nossa Senhora da Graça, em Olinda, um dos centros mais avançados do ensino eclesiástico brasileiro, concebido sob o espírito das reformas pombalinas e do Iluminismo, onde se ensinavam não apenas teologia, mas também filosofia, ciências naturais, matemática, história e física experimental. O seminário fervilhava de ideias liberais e fora berço de movimentos revolucionários, formando um clero mais atento às questões do Estado e da sociedade do que às rígidas prescrições tridentinas. Nesse ambiente, Thomaz consolidou uma visão ampla do papel do sacerdote, entendido como agente moral, político e civil.
A ordenação, contudo, não se deu em Olinda. Por circunstâncias extraordinárias, ligadas à ausência do bispo da diocese, que se afastara temendo o destino suspeito de seus antecessores, Thomaz precisou viajar à Bahia. Em março de 1832 partiu para Salvador, acompanhado de um primo, numa jornada registrada pela imprensa pernambucana. Ali foi ordenado pelo arcebispo Dom Romualdo Antônio de Seixas, recebendo o diaconato em abril e o presbiterato em maio do mesmo ano. Retornou ao Seridó já investido de autoridade religiosa, pronto para exercer um ministério que se estenderia, com interrupções, por quase seis décadas.
Sua atuação eclesiástica concentrou-se sobretudo em Acari, onde foi nomeado vigário encarregado da recém-criada Freguesia de Nossa Senhora da Guia em 1835, assumindo posteriormente, por longos períodos, o cargo de vigário colado. A paróquia tornou-se o eixo de sua influência espiritual e social, ainda que sua trajetória fosse marcada por afastamentos forçados e retornos tardios, como ocorreu após a censura eclesiástica que sofreu no final da década de 1860. Mesmo assim, sua presença moldou a vida religiosa local, culminando na construção da grandiosa Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, iniciada em 1857 e concluída dez anos depois, obra tida como hercúlea para um sertão assolado por secas, epidemias e escassez de recursos. A edificação mobilizou toda a comunidade, consumiu fortunas em gado e propriedades e transformou-se num símbolo de fé, poder e permanência. A festa de inauguração, prolongada por vários dias, atraiu milhares de pessoas e consolidou a igreja como marco regional, reconhecimento que se ampliaria, já no século XXI, com sua elevação à categoria de Basílica Menor por decreto papal.
Paralelamente à vida sacerdotal, Thomaz Pereira de Araújo lançou-se na política, num tempo em que Igreja e Estado se entrelaçavam e os párocos eram também agentes administrativos do Império. Filiado ao Partido Liberal, foi eleito em 1835 deputado provincial, integrando a primeira legislatura da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, e exerceu o mandato em cinco ocasiões distintas ao longo de décadas. Sua ação política foi decisiva para a criação da Freguesia e da Vila de Acari, institucionalizando o poder local e reforçando sua liderança. Ainda assim, nem o prestígio político nem os longos anos de serviço lhe garantiram segurança material: ao solicitar pensão por invalidez, já quase cego, teve o pedido negado, sob o argumento de que tais mercês dependiam da vontade do Imperador.
Se sua vida pública foi marcada por realizações visíveis, sua vida privada tornou-se fonte de escândalo, murmúrio e perseguição. Padre Thomaz não observou o celibato clerical, como tantos outros sacerdotes do Brasil oitocentista, onde o clero frequentemente possuía bens, escravos e família constituída. Manteve relações com várias mulheres e formou numerosa descendência, sendo sua ligação mais duradoura com Maria Custodina do Amor Divino, iniciada quando ambos eram jovens, num romance vivido entre encontros furtivos e paixões discretas. Maria Custodina, de origem incerta e alvo de preconceitos, carregou por toda a vida o apelido depreciativo de “Tacaca”, cuja explicação oscilava entre histórias populares, ora ligadas a um episódio com um gambá, ora à inveja provocada pelo uso de perfumes franceses. O estigma ultrapassou sua pessoa e recaiu sobre filhos, netos e bisnetos, que por gerações foram alvo de humilhações, recusas matrimoniais e discriminações abertas, mesmo décadas após a morte do padre.
O episódio mais contundente dessa história ocorreu em 7 de janeiro de 1869, quando Thomaz compareceu ao cartório de Acari para lavrar uma escritura pública de perfilhação, reconhecendo oficialmente seis filhos havidos com três mulheres distintas. No documento, atribuiu seus atos à fragilidade humana e garantiu aos filhos direitos sucessórios, num gesto raro e ousado para um sacerdote. A atitude, porém, teve alto custo: a Igreja instaurou processo de censura, suspendendo-lhe as ordens e proibindo-o de administrar sacramentos, o que o afastou da paróquia por alguns anos e manchou sua reputação oficial, ainda que não apagasse sua influência social.
Inserido nas grandes questões nacionais do Império, Padre Thomaz também enfrentou desgastes ao lidar com temas como a escravidão e a Guerra do Paraguai. Como muitos de seus contemporâneos, viveu num contexto em que a escravidão era amplamente aceita, inclusive no meio eclesiástico, e sua figura se confunde com essa realidade histórica, sem que se destaquem ações individuais que o diferenciem do padrão da época. Já durante a guerra, coube-lhe a ingrata tarefa de recrutar jovens sertanejos para o front, muitas vezes à força, numa missão que custou caro à comunidade e à sua própria imagem, pois poucos dos enviados retornaram com vida. Anos depois, recusou-se a participar de novo alistamento, alegando não estar em condições morais, sinal claro do peso que essa experiência lhe impusera.
Ao morrer, Thomaz Pereira de Araújo foi sepultado na própria igreja que mandara erguer, como se selasse, em pedra e cal, a contradição de sua existência: sacerdote que desafiou a disciplina clerical, político liberal num sertão conservador, patriarca de uma família estigmatizada e, ao mesmo tempo, fundador de um dos mais duradouros símbolos religiosos do Seridó. Sua vida espelha as tensões do Brasil Império, onde fé, poder, moral e sobrevivência se entrelaçavam num mesmo fio, áspero e humano, como o próprio sertão que o moldou.
Sob a autoridade historiográfica de Anderson Tavares de Lyra, descortina-se a trajetória do Capitão Cipriano Bezerra de Araújo Galvão, patriarca que atravessou quase todo o século XIX, vivendo entre 1809 e 1899.
Figura de relevo na sociedade do Seridó, Cipriano uniu-se em matrimônio a Izabel Cândida de Araújo, inserindo-se numa respeitável malha familiar como genro de Antônio Pereira de Araújo (1781-1851) e Maria José Pereira de Araújo (1788-1858), e cunhado do Padre Tomaz Pereira de Araújo.
Sua vida pública foi marcada tanto pela defesa da ordem quanto pela administração da justiça: em 1832, integrou a legião seridoense que marchou contra o caudilho Pinto Madeira e, entre 1841 e 1843, serviu como promotor público interino.
Deste tronco robusto e documentado para dirimir quaisquer dúvidas genealógicas, germinaram treze descendentes que perpetuaram o legado familiar.
A primogenitura coube ao Coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão (1836-1921), nascido em Acari, que em 7 de agosto de 1856 desposou Maria Febrônia de Araújo Galvão, filha de Cipriano Lopes Galvão, contraindo segundas núpcias posteriormente com Vigolvina, natural de Martins.
Seguiu-se Manoel Bezerra de Araújo Galvão (1838-1922), que na Fazenda Sobradinho, em 1º de junho de 1858, casou-se com Ana Maria de Jesus, filha de Antônio Pires de Albuquerque Galvão.
As alianças com a família Pires de Albuquerque Galvão estreitaram-se ainda mais com as filhas seguintes: Francisca Bezerra de Jesus (1839-1861) casou-se em 1855 com Bernardino Pires de Albuquerque Galvão; na mesma data e na Fazenda Ingá, sua irmã Josefa Bezerra de Jesus (1841-1916) consorciou-se com Sérvulo Pires de Albuquerque Galvão. Após o falecimento prematuro de Francisca, sua irmã Isabel Cândida da Conceição (1845-1922) viria a casar-se, em 1862, com o viúvo Bernardino Pires de Albuquerque Galvão.
A descendência prosseguiu com o Coronel José Bezerra de Araújo Galvão (1844-1926), que em Acari uniu-se a Antônia Bertina de Araújo em 1872; e com Maria Rosalina de Araújo (nascida em 1846), que no mesmo ano desposou o viúvo Dr. Manoel José Fernandes.
Houve o infortúnio de João Bezerra de Araújo (1848), falecido na infância, mas o nome foi retomado por seu irmão subsequente, João Bezerra de Araújo Galvão (nascido em 1849), que protagonizou dois enlaces com irmãs: primeiro com Maria Senhorinha de Jesus, em 1869, e depois com Porfiaria Ângela de Araújo.
A linhagem continuou com Tereza Maria Bezerra de Araújo, a "Tetê" (1850-1941), esposa do Coronel Ezequiel de Araújo Fernandes; Porfiria Augusta Bezerra (1854-1883), casada com Zabulon Jovem Herói da Trindade; e Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa (1857-1947), que após um primeiro casamento sem sucessão com Isabel Teodomira, uniu-se em 1901 a Mariana Iluminata da Nóbrega.
Por fim, encerra-se a lista com Antônia Maria Bezerra de Araújo, que em 1870 casou-se com Laurentino Bezerra de Araújo Galvão, sem deixar descendência, consolidando este valioso registro da complexa árvore genealógica das famílias do Seridó paraibano e potiguar.



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