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1818


Há muito que os sertões do Seridó, no Rio Grande do Norte, reverenciam a hegemonia da "Casa da Família Pereira", uma dinastia cuja influência se estendeu, com vigor, da agricultura à alta política. O patriarca desta estirpe, Félix de Araújo Pereira, veio à luz em 26 de fevereiro de 1818, na Fazenda Garrotes, termo de Acari. Herdeiro de vasto latifúndio que se espraiava pelo Seridó e sertão adentro, Félix consagrou-se como um opulento pecuarista, pioneiro na criação das raças Guzerá e Holandesa. Pela simbiose com suas terras, tornou-se conhecido pela alcunha de "Joaquim Félix dos Garrotes", ostentando a patente de Coronel — título que, à época, conferia distinção e poder aos grandes senhores rurais.

Em sua vida privada, o Coronel uniu-se em matrimônio a Maria Suzana da Anunciação, nascida em 10 de março de 1822. Seguindo os costumes de antanho, enquanto os varões perpetuavam o sobrenome paterno, as filhas recebiam nomes de devoção religiosa; assim, Maria Suzana, filha de Joaquim de Santana Pereira e Marcelo de Anunciação e Lima, manteve a tradição. Félix, por sua vez, era filho de Manoel de Araújo Pereira e Rita Fernandes. O patriarca encerrou seus dias em 23 de junho de 1905, tendo sobrevivido à sua consorte, falecida em 2 de junho de 1877.

A descendência do casal projetou o nome da família para além das porteiras das fazendas. Joaquim das Virgens Pereira de Araújo, um dos filhos, inaugurou a vocação diplomática e comercial do clã ao enviar seu filho, Raimundo Nonato Pereira de Araújo, para a Inglaterra, com o fito de exportar o algodão mocó — produto selecionado com esmero por seu irmão, Francisco Raimundo de Araújo, o "Chico Ferreiro", um sábio empírico de notável habilidade. No campo político, a família Pereira ascendeu aos mais altos degraus do poder estadual, com Radir Pereira de Araújo e Cortez Pereira de Araújo ocupando o governo do Rio Grande do Norte. No âmbito municipal, a influência foi igualmente marcante: Rainel Pereira de Araújo e seus filhos, Alzair e Alzamir, governaram São Tomé; Dr. Sérvulo Pereira de Araújo, além de Delegado da Ordem dos Advogados, foi alcaide de Cruzeta, Acari e Florânia; enquanto seus irmãos Miguel e Félix serviram como vereadores em Cruzeta.

Ainda hoje, a linhagem se faz presente na vida pública, como atesta o vereador Cypriano Pinheiro Medeiros de Araújo, bisneto de Joaquim e de sua segunda esposa, Cipriana Bezerra de Araújo — esta, parenta do Coronel José Bezerra de Araújo, fundador de Currais Novos. Outros nomes, como Pacífico Medeiros Neto de Araújo, prefeito de Jucurutu, e diversos descendentes dedicados ao magistério, compõem este mosaico familiar. É justo, portanto, que Félix de Araújo Pereira seja aclamado como o fundador de Cruzeta — município desmembrado de Acari e batizado em alusão à abundância dos peixes homônimos em suas águas —, onde seus netos, filhos de Joaquim, erigiram um Grupo Escolar, perpetuando o legado de que, no Seridó, a família Pereira foi, e é, sinônimo de terra, fé e saber.

No coração do Seridó potiguar, onde a terra áspera molda o caráter dos homens e a persistência sempre foi condição de sobrevivência, a Família Pereira inscreveu seu nome como uma das mais influentes e duradouras forças sociais, econômicas e políticas da região. Desde o século XIX, o sobrenome Pereira passou a ecoar como sinônimo de poder, prosperidade e liderança, a ponto de o próprio Seridó ser, por muito tempo, reconhecido como a casa dessa família, cuja presença se fez sentir tanto nas vastidões das fazendas quanto nos salões da política e nas salas de aula do sertão.

A origem dessa dinastia remonta à figura de Félix de Araújo Pereira, nascido em 26 de fevereiro de 1818, na Fazenda Garrotes, no município de Acari. Herdeiro de um extenso quinhão de terras que se espalhava por todo o Seridó e avançava pelo sertão adentro, Félix construiu sua fortuna sobre a base sólida da pecuária, atividade que, à época, representava não apenas sustento, mas distinção social. Criador das raças bovinas Guzerá e Holandesa, destacou-se como grande proprietário rural, profundamente ligado à vida da fazenda, o que lhe valeu o apelido de Joaquim Félix dos Garrotes, numa referência direta à terra que lhe deu nome e prestígio. Seu êxito econômico e sua posição social culminaram na concessão do título de Coronel, distinção reservada aos grandes senhores de terras, cuja autoridade extrapolava os limites da propriedade e alcançava a organização social e política do entorno.

Casado com Maria Suzana da Anunciação, nascida em 10 de março de 1822, Félix formou uma família numerosa, moldada pelos costumes de seu tempo, quando muitas filhas não recebiam o sobrenome paterno, sendo identificadas por nomes de inspiração religiosa. Naquele contexto histórico, em que toda família que se prezasse almejava ter entre os seus um fazendeiro, um professor ou um padre, os Pereira se alinharam perfeitamente ao ideal sertanejo, fincando raízes profundas no domínio da terra e expandindo sua influência para outros campos do saber e do poder.

A descendência de Félix e Maria Suzana não se limitou à continuidade da atividade agropecuária, mas diversificou sua atuação de maneira notável. Um dos filhos, Joaquim das Virgens Pereira de Araújo, deu início a uma nova vertente da família ao lançar-se na diplomacia e no comércio internacional. Foi ele quem enviou o próprio filho, Raimundo Nonato Pereira de Araújo, à Inglaterra, onde este se destacou na exportação do algodão mocó, produto selecionado com esmero por seu irmão Francisco Raimundo de Araújo, conhecido no sertão como Chico Ferreiro. Homem de saber empírico e habilidade singular com o ferro, Francisco Raimundo ganhou fama como verdadeiro sábio popular, contribuindo de forma decisiva para o aprimoramento da produção algodoeira da região.

Ao longo das gerações, a Família Pereira ocupou lugar de destaque na vida política do Rio Grande do Norte, alcançando os mais elevados cargos do estado. Radir Pereira de Araújo e Cortez Pereira de Araújo chegaram ao governo estadual, consolidando a presença da família no comando político potiguar. Nos municípios do interior, a influência não foi menor. Rainel Pereira de Araújo governou São Tomé, seguido por seus filhos Alzair e Alzamir Pereira de Araújo, perpetuando a tradição administrativa no mesmo município. Raimundo Nonato Pereira de Araújo exerceu os cargos de prefeito e vereador em Florânia, enquanto Pacífico Medeiros Neto de Araújo, neto de Joaquim e Cipriana, assumiu a prefeitura de Jucurutu.

A atuação política estendeu-se ainda às câmaras municipais, com vereadores como Raimundo Nonato Pereira de Araújo, em Florânia, Miguel Pereira de Araújo e Félix Pereira de Araújo, em Cruzeta, além de Cypriano Pinheiro Medeiros de Araújo, bisneto de Joaquim e Cipriana Bezerra de Araújo, também vereador no mesmo município. Cipriana, segunda esposa de Joaquim, era parente próxima do coronel José Bezerra de Araújo, fundador de Currais Novos, o que reforça os laços entre as grandes famílias que moldaram a história do Seridó.

Entre os descendentes de maior projeção destaca-se o doutor Sérvulo Pereira de Araújo, filho de Joaquim e Cipriana, cuja trajetória sintetiza o espírito público da família. Além de prefeito de Cruzeta, Acari e Florânia, exerceu o cargo de Delegado da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio Grande do Norte, unindo formação jurídica, atuação política e compromisso institucional.

Paralelamente à política, a educação foi outro campo no qual os Pereira deixaram marcas profundas. Muitos descendentes de Félix e Maria Suzana dedicaram-se ao magistério e à administração escolar, atuando como professores e diretores. Os filhos de Joaquim, em especial, ficaram conhecidos por sua contribuição decisiva à educação rural, ao construírem, na zona rural de Cruzeta, um Grupo Escolar que oferecia ensino gratuito, iniciativa pioneira que abriu caminhos de conhecimento para gerações de sertanejos.

A ligação da Família Pereira com Cruzeta é tão estreita que Félix de Araújo Pereira deve ser reconhecido como o fundador do município, posteriormente desmembrado de Acari. O nome da cidade, inspirado na grande quantidade de peixes-cruzeta encontrados na região, guarda a memória de um território que se desenvolveu sob a influência direta dessa família. Seja pela posse da terra, pela liderança política ou pelo investimento na educação, os Pereira foram agentes centrais na formação social, econômica e cultural de Cruzeta e de todo o Seridó.

Assim, a história da Família Pereira confunde-se com a própria história do sertão seridoense, marcada por homens e mulheres que, a partir da dureza da terra e da força do trabalho, ergueram uma dinastia cujo legado atravessa séculos, deixando raízes profundas na memória, nas instituições e na identidade do Rio Grande do Norte.





  

No panteão da nobreza potiguar do período imperial, restrito a apenas quatro titulares, avulta a singular figura do Doutor Luís Gonzaga de Brito Guerra, o Barão do Açu. Diferenciando-se de seus pares, majoritariamente ligados à aristocracia fundiária, ele obteve a mercê imperial em virtude dos relevantes serviços prestados ao País através de uma brilhante carreira na magistratura, sendo o único entre os norte-rio-grandenses a ostentar a honraria "com Grandeza", prerrogativa que lhe permitia o uso do brasão com coroa de Visconde. Natural de Campo Grande, onde nasceu a 27 de setembro de 1818, era filho de Simão Gomes de Brito e Maria Madalena de Medeiros, e encerrou seus dias em Caraúbas, em 6 de junho de 1896.

Sua formação intelectual consolidou-se na tradicional Faculdade de Direito de Olinda, onde se bacharelou em ciências jurídicas e sociais na turma de 1839. O início de sua trajetória pública deu-se no sertão, empossado como juiz municipal dos Termos do Príncipe (atual Caicó) e Acari, exercendo a função entre março e julho de 1843. A sua competência jurídica levou-o a assumir, subsequentemente, as judicaturas municipais de Açu, Santana do Matos e Angicos, em períodos que compreenderam os anos de 1843 e 1848. Ascendeu ao cargo de Juiz de Direito da comarca de Martins em 1851, servindo de 1852 a 1858, ano em que foi transferido para a comarca de Açu, onde permaneceu até 1873. A vida política correu paralela à jurídica: foi Deputado Provincial em três legislaturas (1842-43, 1846-47 e 1856-57) e alcançou o ápice administrativo na província ao ocupar a 1ª vice-presidência e, efetivamente, a Presidência do Rio Grande do Norte entre agosto e setembro de 1868.

O reconhecimento de seu notável saber jurídico projetou-o para além das fronteiras provinciais, sendo nomeado Presidente Desembargador da Relação de Ouro Preto, em Minas Gerais, cargo que ocupou em diferentes períodos entre 1873 e 1885. Atuou brevemente como Desembargador da Relação do Ceará em 1885, coroando sua carreira como Ministro do Supremo Tribunal de Justiça, a mais alta corte do Império, de 23 de março de 1887 a 10 de novembro de 1888. Sua folha de serviços à Coroa rendeu-lhe títulos de grande prestígio: foi feito Conselheiro por Carta Imperial de 1874, Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa em 1875 e Comendador da Imperial Ordem de Cristo em 1881. Finalmente, sob o Gabinete de João Alfredo, o Decreto Imperial de 17 de novembro de 1888 conferiu-lhe o título de Barão do Açu com Grandeza.

Na esfera privada, a vida do magistrado foi marcada por três consórcios matrimoniais que geraram uma vastíssima descendência. Casou-se primeiramente com Maria Mafalda de Oliveira (1823-1860); após enviuvar, uniu-se a Josefina Augustina da Nóbrega (1827-1879); e, em terceiras núpcias, desposou Maria das Mercês de Oliveira (1858-1896), que faleceu menos de um mês após o marido. Desta árvore genealógica, ramificaram-se os filhos Adrião R. de Brito, Pautilia, Lino Constâncio de Brito Guerra, Maria Ubalda de Brito Guerra, Maria dos Anjos de Oliveira, Simôa Gaudiosa de Oliveira, Neomisia de Brito Guerra, Margarida Emília de Oliveira, Teófilo Olegário de Brito Guerra, Pedro, Paulo, Adrião R. de Brito (II), Boaventura Seráfico de Brito Guerra, João Crisóstomo de Brito Guerra, Apolônia Ferreira da Nóbrega, Felipe Nery de Brito Guerra, Filomena de Brito Guerra, Andrônico de Brito Guerra, Luís Gonzaga de Brito Guerra Filho, Maria Joana de Brito Guerra, Eufrozina de Brito Guerra, Eusébia de Brito Guerra e José Calazans de Brito Guerra, perpetuando o legado de um dos homens mais influentes do Rio Grande do Norte imperial.


Sob a atmosfera patriarcal do século XIX, desponta na história genealógica do Seridó a figura de Modesta Natália de Medeiros. Décima terceira filha do Tenente-Coronel da Guarda Nacional Francisco Antônio de Medeiros e de Ana Vieira Mimosa, Modesta nasceu na cidade de Caicó, Rio Grande do Norte, aos dois dias de fevereiro de 1862. Sua trajetória pessoal entrelaçou-se definitivamente com as raízes profundas da região ao contrair núpcias na Fazenda Umari, em 27 de novembro de 1883, com Francisco Justino de Medeiros, vulgarmente conhecido pela alcunha de Chico Gordo.

O esposo, Francisco Justino, carregava consigo uma vasta herança familiar. Era filho de Pacífico José de Medeiros e de sua primeira consorte, Francisca Xavier do Nascimento. Pela linha paterna, era neto de Manuel de Medeiros Rocha e Ana de Araújo Pereira, sendo esta filha de Antônio Paes de Bulhões e Ana de Araújo Pereira, e aquele, filho de Rodrigo de Medeiros Rocha e Apolônia Barbosa de Araújo — irmãos, respectivamente, de Sebastião de Medeiros Matos e de Antônia de Morais Valcácer. Já pelo ramo materno, Francisco descendia de Francisco Gomes da Silva e Maria Joaquina dos Santos Dantas. Sua avó materna era neta do Capitão Caetano Dantas Correia e de Josefa de Araújo Pereira, a qual, por sua vez, era filha do lendário patriarca Tomás de Araújo Pereira, o "Adão do Seridó", e de Maria da Conceição de Mendonça.

Deste consórcio fecundo, germinou uma descendência numerosa, da qual se destacam três ramos principais. A primogênita, Sebastiana Natália de Medeiros, conhecida como "Mulata", uniu-se a seu primo legítimo Antônio Cesino de Medeiros Filho. O terceiro filho do casal, Francisco Justino de Medeiros Filho, o "Chico", casou-se com Maria de Araújo Galvão. Contudo, foi através da segunda filha, Maria Fausta de Medeiros Dantas, que a família se ramificou com notável vigor político e social.

Maria Fausta contraiu matrimônio em 1900 com Justino Pereira Dantas. Nascido na Fazenda Oiticica em 1878, Justino era filho de José Calazâncio Dantas, o "Bembém das Oiticicas", e Enedina Maria de Sant'Ana, carregando o sangue dos Dantas e dos Soares Pereira. Proprietário da Fazenda Bom Descanso, no atual município de São José do Seridó, Justino Dantas firmou-se como chefe político local do Partido Social Democrático (PSD), exercendo a vereança em Jardim do Seridó por diversos mandatos entre as décadas de 1920 e 1930, além de ter sido Prefeito Interino em 1945 e 1946. Faleceu em 1954, deixando uma vasta prole.

A descendência de Maria Fausta e Justino Dantas é extensa. A filha Maria de Araújo Dantas (Maria dos Anjos), casada em 1917 com José Marcos de Medeiros, gerou oito filhos: Manuel, José Marcos Filho, Felinto e Gisela (todos falecidos na infância), além de Justino, Nair, Iny e Djalma. Outra filha, Enedina Modesta Dantas, desposou Pedro Jeremias da Cunha em 1917. Já Modesta Enedina Dantas, unida a José Estêvão Dantas, foi mãe de onze filhos: Severino, José Estêvão Filho, Maria Modesta, Francisco Estêvão, Severino Estêvão, Juarez Estêvão, Justino Neto, Inês Modesta, João Estêvão, Pedro Estêvão e Teresinha Modesta.

A linhagem prosseguiu com Almira Dantas de Góis, que em 1921 casou-se com Manuel Aureliano de Góis, gerando Adauto, Aníbal, Manoel, Ajace, João, Justino, Maria e José Dantas de Góis. Houve filhos de Maria Fausta que pereceram precocemente, como Francisco Justino Neto, Laurina e Pedro Celestino Dantas. Entretanto, a vida seguiu com Alice Dantas Meira, consorciada em 1930 com Manuel Salviano Meira, mãe de Maria Alice, Geraldo (falecido cedo), Ana e Severino (também falecido cedo). Severina de Medeiros Dantas casou-se em 1926 com Abdias Fernandes Dantas, gerando João, Juarez, Juracy e Jurandyr. Justino Dantas Filho, nascido em 1912, uniu-se a Palmira de Assis Dantas, com quem teve o filho Adeilson.

Dentre os filhos de Maria Fausta, sobressaiu a figura pública de José do Carmo Dantas. Nascido em 1913 e casado com Julieta Costa Dantas, foi um dos artífices da emancipação política de São José do Seridó, onde atuou como Vice-Prefeito e Prefeito entre 1968 e 1976. Sua gestão foi marcada pelo fomento à educação e obras de infraestrutura. José do Carmo e Julieta deixaram nove filhos: a auditora Francisca Zelita; o engenheiro agrônomo Zenilton Costa Dantas (pai de Danielle, Zenilton e Diogo); a cirurgiã-dentista Yolita; o engenheiro civil Adão da Costa Dantas (pai de Daniel, Leonardo, Cristiano e Vinicius); o técnico em mineração José da Costa Dantas; a médica Eva Maria; o técnico em contabilidade Justino da Costa Dantas; a administradora Maria de Fátima e a geógrafa Maria do Socorro.

A prole de Maria Fausta e Justino Dantas completou-se com Silvino e Quintila (falecidos na infância); Inácio de Medeiros Dantas, casado com Áurea Dantas de Melo; Benedito de Medeiros Dantas, esposo de Júlia; Lilália Dantas de Medeiros, casada em 1937 com Manuel Vieira de Medeiros; Teodora (falecida criança); Paulino de Medeiros Dantas, que em 1947 desposou Ignez de Azevedo Dantas; Manuel de Medeiros Dantas, casado com Teresa Dantas de Melo; e, finalmente, Inês de Medeiros Dantas, que faleceu solteira. Esta complexa teia genealógica reafirma a importância de Modesta Natália de Medeiros como matriarca de um clã que ajudou a moldar a história social e política do Seridó potiguar.



 Padre José Modesto Pereira de Brito (1818-1888): A Vida e Obra de um Clero Sertanejo

Nascido em 8 de fevereiro de 1818, José Modesto Pereira de Brito foi batizado na Igreja Matriz de Sant'Ana do Seridó, na então Vila do Príncipe (Caicó). Seu batismo foi conduzido por seu tio materno, Francisco de Brito Guerra, que exercia o ofício de vigário da freguesia. Filho de Joaquim de Santana Pereira e Maria Teresa das Mercês, José Modesto, junto a seu irmão Francisco Justino, cursou a Aula Pública na Vila do Príncipe, sob a regência do professor Joaquim Apolinar Pereira de Brito, que era seu irmão.

Os irmãos José Modesto e Francisco Justino seguiram a vocação religiosa, ordenando-se sacerdotes em 13 de novembro de 1842, após completarem seus estudos no Seminário de Olinda.

Após a ordenação, Padre José Modesto atuou por alguns anos em Caicó. Em seguida, foi nomeado vigário da Freguesia de São José de Cariranha, no Alto São Francisco, onde permaneceu por um tempo. Posteriormente, transferiu-se para Missão Velha, no Ceará, onde empreendeu a construção de uma nova igreja matriz, deixando-a quase concluída. Através de uma permuta, assumiu a paróquia de Exu, no alto sertão pernambucano.

Sua influência se estendeu para além dos limites paroquiais. Na Fazenda Poço da Anta, entre 1858 e 1859, ele construiu uma capela dedicada a Nossa Senhora do Bom Conselho, dando origem à povoação que viria a se chamar Granito. Em 1871, o padre serviu como vigário em Jardim do Seridó. Com a elevação de Granito à categoria de freguesia em 23 de maio de 1872, o Padre José Modesto tornou-se seu primeiro vigário. Além de suas funções paroquiais, exerceu os cargos de visitador e arcipreste em parte do sertão de Pernambuco.

Já em idade avançada, retornou ao Rio Grande do Norte, assumindo o vicariato da Freguesia de Touros, onde permaneceu por um breve período, de maio a outubro de 1882. Sentindo-se doente, o Cavaleiro da Ordem de Cristo regressou de forma definitiva ao Seridó, fixando residência em Acari. Na cidade, tornou-se proprietário da notável Fazenda do Saco e mandou edificar o primeiro sobrado da Vila, localizado na então Rua dos Alpendres (atual Rua Tomás de Araújo).

O Padre José Modesto Pereira de Brito faleceu em 21 de janeiro de 1888 e foi sepultado em Acari. Sua Fazenda do Saco foi herdada por seu sobrinho e genro, José Sancho de Araújo, que também foi o inventariante de seus bens. O antigo sobrado do sacerdote, uma construção com planta retangular e dois pavimentos, ainda se mantém em bom estado de conservação. Sua arquitetura, com a fachada principal arrematada por uma platibanda, reflete um estilo peculiar da época na região seridoense. O imóvel preserva a sua feição original, com poucas modificações, e suas esquadrias de madeira em vergas retas se distinguem dos arcos abatidos, mais comuns no período colonial.


Padre José Modesto Pereira de Britto, na época quando foi vigário colado de Granito, Pernambuco. Pertencia a Ordem dos Servitas, foi comendador da Ordem de Cristo e membro da Imperial Ordem da Rosa. Também vigário de Pau dos Ferros, de Missão Velha e fundador e vigário colado de Granito, Pernambuco

Casou -se por força de lei imperial de1865 (que permitia aos padres só Brasil casarem e ter filhos) (o imperador, por causa do padroado, era o chefe da igreja no Brasil), com Joaquina Gonçalves Cavalcanti, nascendo 5 filhos : Maria Euzebia da Assunção Britto, Mônica Maria da Ressurreição Brito, Pedro Paulo Pereira de Brito, o Coronel Joaquim Servita Pereira de Brito e Enrique Pereira de Brito.

Faleceu em sua fazenda Cacimba de Cabra, município do Acari, em 1888, posto que conseguiu aposentadoria por motivo de doença.

Em seu inventário, como inventariante está o genro e sobrinho o Coronel José Sancho. Dentre seus pertences, aqui conservo uma pequena imagem de Nossa Senhora do Rosario que foi de sua propriedade. 


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Josefa Freire de Medeiros foi casada com José Batista dos Santos, filho legítimo de João Batista dos Santos, da descendência de Domingos Alves dos Santos, e de Maria Mareelina da Conceição, tendo o matrimônio sido celebrado aos doze dias do mês de outubro do ano de mil oitocentos e dezoito, pelas nove horas da manhã, na Fazenda Timbaúba, situada na Freguesia do Seridó, após precedidas as denunciações canônicas, concedida a dispensa de consanguinidade e cumpridas as formalidades religiosas de confissão, comunhão e exame de doutrina cristã, quando o Reverendo Coadjutor Inácio Gonçalves Mello, com a devida licença, uniu em matrimônio e concedeu as bênçãos nupciais aos contraentes José Batista dos Santos e Josefa Freire de Medeiros, ambos naturais e moradores da referida freguesia, sendo ele declarado filho legítimo de João Batista dos Santos e de Maria Mareelina, e ela filha legítima de Joaquim de Araújo Pereira e de Josefa Freire de Vasconcelos, tendo servido como testemunhas, além de outras, Felipe de Araújo Pereira e Gonçalo José Cavalcante, ambos casados, os quais assinaram o assento juntamente com o celebrante, conforme registro posteriormente lavrado e assinado pelo vigário Francisco de Brito Guerra. José Batista dos Santos faleceu aos treze dias do mês de junho do ano de mil oitocentos e oitenta e um, vitimado por hidropisia, sendo sepultado no cemitério público da Cidade do Príncipe, contando oitenta e sete anos de idade, descrito como Tenente-Coronel, casado com Josefa Freire de Araújo, tendo sido sepultado trajando a farda da Guarda Nacional, conforme assento lavrado e assinado pelo coadjutor e pro-pároco Domingos Pereira de Oliveira. José Batista dos Santos havia nascido aos cinco dias do mês de março do ano de mil setecentos e noventa e quatro, na fazenda Catururé, próxima a Jardim do Seridó, alcançando a patente de Tenente-Coronel da Guarda Nacional, corporação na qual já figurava como capitão no ano de mil oitocentos e trinta e um, tendo ingressado na Irmandade das Almas do Caicó no ano de mil oitocentos e trinta e três, sendo residente e coproprietário da fazenda Timbaúba, a qual dividia com seu sogro Joaquim de Araújo Pereira, além de possuir casa de residência no Caicó, situada na Praça da Matriz, no início da atual Avenida Seridó, então conhecida como Rua da Fortuna. Josefa Freire de Medeiros nasceu aos onze dias do mês de abril do ano de mil oitocentos, vindo a falecer no ano de mil oitocentos e noventa e oito, não tendo sido localizado, até o momento, o respectivo assento de óbito nos livros paroquiais da Freguesia do Caicó, constando que, por ocasião de sua morte, deixou vivos mais de setecentos descendentes, segundo a tradição familiar, que a descreve como mulher de baixa estatura, morena e corpulenta. O casal era conhecido entre seus descendentes pelos apelidos de Dindinho e Dindinha, mantendo vida próspera e influente na região, sendo também preservada pela tradição oral a memória de um episódio ocorrido na feira de gado do Recife, quando José Batista dos Santos, conduzindo numerosa boiada do Seridó para venda aos marchantes, diante da tentativa destes de impor preço aviltado pelas reses, ordenou o abate de um dos bois e passou a distribuir gratuitamente a carne ao público, declarando que procederia do mesmo modo até o último animal, o que levou os comerciantes, alarmados com a atitude inusitada, a pagar-lhe prontamente o preço justo e corrente na praça, episódio que ilustra o temperamento firme e resoluto atribuído à sua figura na memória regional.


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Félix de Araújo Pereira nasceu em 26 de fevereiro de 1818 e faleceu em 23 de junho de 1905, em sua fazenda Garrotes, situada no Acari, tendo sido casado com Maria Suzana de Anunciação, identificada  no capítulo da descendência de Pedro Ferreira das Neves. Maria Suzana nasceu em 10 de março de 1822 e faleceu em 2 de junho de 1877, igualmente no Acari, sendo filha de Joaquim de Santana Pereira e de Maria Teresa das Mercês, esta irmã do Senador Padre Guerra. O registro de batismo de Maria Suzana consigna que, aos vinte e cinco dias do mês de março de mil oitocentos e vinte e dois, na Matriz do Siridó, foi batizada solenemente, com a imposição dos santos óleos, Maria, branca, filha legítima de Joaquim de Santana Pereira, natural da freguesia do Siridó, e de Maria Teresa das Mercês, natural do Panema, freguesia do Assú, tendo sido padrinhos Caetano Camelo Pereira Júnior e Dona Joana Manoela da Anunciação, casados, conforme assentamento lavrado à época, o qual confirma sua filiação, naturalidade e inserção no contexto familiar e social da freguesia.

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