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1827

 

 A figura do coronel João Damasceno Pereira de Araújo (1827–1908) ocupa lugar central na história social, política e simbólica do Seridó, configurando-se como um dos mais acabados arquétipos do patriarca sertanejo oitocentista. Filho de Antônio Pereira de Araújo e de Maria José de Medeiros, integrava uma linhagem de elevado prestígio regional, sendo neto de João Damasceno Pereira e de Tomás de Araújo Pereira, este último reconhecido como o primeiro presidente da Província do Rio Grande do Norte após a Independência do Brasil. Era, ainda, irmão do padre Tomás Pereira de Araújo, deputado provincial em sucessivos mandatos entre 1835 e 1861 e vigário de Acari por mais de seis décadas, figura de enorme influência espiritual e política.

Ainda adolescente, aos quinze anos de idade, João Damasceno contraiu matrimônio com sua prima Thereza Alexandrina de Jesus, então com apenas treze anos, união sugerida por seu avô, o velho Tomás de Araújo Pereira, já cego, que desejava assegurar o futuro da neta que criava sob sua tutela. O jovem casal estabeleceu residência inicialmente na Fazenda Bulhões, em Acari, na bacia do Gargalheiras, onde o coronel se afirmou como liderança local, exercendo influência política decisiva até o ano de 1868, quando, por escolha própria, transferiu o comando regional a seu sobrinho e afilhado, o coronel Silvino Bezerra de Araújo Galvão, que manteve a hegemonia familiar até o fim de sua vida.

Descrito por Juvenal Lamartine como um “belo tipo de sertanejo”, João Damasceno era homem de compleição elevada, forte, dotado de força física descomunal e exímio cavaleiro. Seu porte altivo, aliado a um caráter inflexível e a uma moral severa, granjeou-lhe respeito e temor em todo o Seridó. Fazendeiro rico e poderoso, criava cerca de duas mil cabeças de gado e, nos invernos, recolhia ao curral aproximadamente cento e vinte vacas paridas para a doma de novilhas e bezerros, o que evidencia a dimensão de sua atividade agropecuária. Era senhor de vasta “cabroeira”, numerosa e disciplinada, que lhe assegurava autoridade quase absoluta, especialmente no município de Caicó, onde sua palavra tinha peso de lei.

Sua personalidade era marcada por uma dualidade singular: rigidez extrema no exercício da autoridade e um senso de humor cortante, frequentemente utilizado como instrumento pedagógico e disciplinador. Em um júri realizado em Caicó, quando um promotor tentou acusar um réu que se encontrava sob sua proteção, o coronel aproximou-se silenciosamente, pousou as mãos pesadas sobre os ombros do acusador e ordenou, em tom seco e inapelável: “Sente-se, seu doutor!”. O promotor, intimidado, obedeceu de imediato, calando-se diante da autoridade incontestável do patriarca.

Essa mesma firmeza se manifestava no combate ao banditismo que assolava o sertão. O célebre episódio do cangaceiro Pereirão tornou-se lendário. Perseguido, o bandido buscou abrigo nas terras de João Damasceno, que, fiel aos códigos de hospitalidade sertaneja, concedeu-lhe proteção. Contudo, ao quebrar a confiança e passar a zombar e insultar os moradores, Pereirão foi pessoalmente capturado pelo coronel, amarrado e entregue a homens de confiança para condução a Caicó. Conta-se que, ao ser informado de que a polícia pretendia revistar sua casa, Damasceno respondeu com altivez: “Diga ao alferes que o Saco do Martins só tem uma entrada e não tem por onde sair”.

Outro feito notável foi a captura do temido bandido Negro Rock, que aterrorizava a região de Flores, atual Florânia. Em companhia de seu cunhado José Lopes, João Damasceno enfrentou o criminoso em luta corporal, imobilizou-o e o entregou à justiça, livrando o sertão de uma das figuras mais violentas de seu tempo. Ainda que a tradição registre a posterior fuga do bandido sob escolta, sua morte foi celebrada pela população como o fim de um malfeitor que roubava a paz das famílias seridoenses.

Entre as inúmeras histórias que cercam sua figura, sobressaem aquelas em que o humor rude servia de lição moral. Um vaqueiro pedante, fingindo dor de dente para pedir fumo, teve um dente são arrancado com um torquês pelo coronel, que lhe entregou o fumo dizendo: “Pegue, cabra, para não andar com mentira”. Em outra ocasião, um vaqueiro preguiçoso foi castigado com uma armadilha engenhosa envolvendo uma panela de fezes amarrada ao cavalo, lição jamais esquecida. Igualmente célebre é o episódio do rapaz vaidoso que, a conselho do coronel, vestiu-se de Anjo Gabriel para uma procissão; ao sinal de Damasceno, foguetes e música espantaram o cavalo, lançando o “anjo” em fuga pela caatinga, ferido e humilhado.

Em sua fazenda, acolheu também um grupo de ciganos retirantes. Contudo, diante de atitudes inconvenientes e pedidos desmedidos, aplicou-lhes corretivo exemplar, ordenando um banho de assento com pimenta-malagueta para um dos integrantes, o que provocou gritos, correria e a retirada imediata do grupo, episódio que se tornou mais uma das muitas narrativas picarescas associadas ao seu nome.

No ano de 1901, recebeu em sua propriedade o Dr. Pedro Velho e o poeta Juvenal Lamartine, a quem saudou com ironia e espírito arguto, afirmando: “Fui cangaceiro e ainda sei botar tocaia”. Apesar da bravura e da fama austera, era também homem de hospitalidade fidalga, recebendo com distinção autoridades, parentes e visitantes ilustres.

João Damasceno Pereira de Araújo faleceu em 13 de novembro de 1908, deixando um legado que ultrapassa o plano individual para inscrever-se na memória coletiva do Seridó. Forte, valente, astuto e dotado de senso próprio de justiça, chefiou com mão firme tanto no Império quanto nos primeiros anos da República. Seu nome tornou-se sinônimo de uma época em que a autoridade pessoal, sustentada pelo prestígio da linhagem, pela força moral e pelo domínio da terra, era capaz de moldar destinos, impor ordem e marcar de forma indelével a história de toda uma região.

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