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1880

 SILVINA BEZERRA DE ARAÚJO GALVÃO  (1880/1961), filha do Coronel Silvino Bezerra de Araújo. Irmã de Isabel Teodomira Bezerra Galvão Santa Rosa. Esposa do Governador Juvenal Lamartine e genitora do prefeito assassinado pela revolução de 1930 na cidade de Acari/RN, Otávio Lamartine de Faria.

 Possidônio Avelino da Costa, conhecido em todo o Seridó como “Possidônio do Bico da Arara”, nasceu em 17 de maio de 1880, filho de José Venâncio da Costa e Manoela Alexandrina. Faleceu em 7 de fevereiro de 1963, deixando uma memória profundamente entranhada no imaginário seridoense. Sua vida, marcada por feitos singulares, tornou-o personagem referência na cultura sertaneja devido à habilidade quase mítica de “tirar rastros”, característica atribuída aos mais experimentados rastreadores da região.

No livro Sertões do Seridó (Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1980), Oswaldo Lamartine o destaca como um verdadeiro mestre da arte sertaneja de ler os sinais da terra. Relata o escritor que o sertanejo, pela proximidade com o chão e a natureza agreste, aprende desde cedo, como mestre ou aprendiz, a desvendar pegadas, rastros e os menores vestígios deixados na poeira das veredas. Entre esses mestres, afirmava Lamartine, destacava-se Possidônio Avelino da Costa, morador na Serra Padre, em Acari. Nas décadas de 1940, Possidônio percorreu, durante toda uma noite de luar, o lombo da Serra do Bico até Gargalheiras, seguindo os rastros dos cabras que haviam assaltado seu vizinho, o velho Claudino Gogó (p. 194). A façanha cristalizou sua fama.

Por esse episódio — e por tantos outros que permanecem vivos na memória coletiva dos acarienses — Oswaldo Lamartine, em discurso proferido por ocasião da inauguração da TELERN em Acari, homenageou-o publicamente com o título de “mestre de rédeas e de rastros”. Possidônio, de fato, descrevera à família Lamartine os detalhes mais precisos dos rastros deixados pelos assassinos de Otávio, demonstrando, mais uma vez, sua habilidade singular.

A relação de amizade entre Possidônio e Juvenal Lamartine, seu vizinho e futuro governador do Rio Grande do Norte, revela a estatura moral e a confiança que despertava. Diversas vezes acompanhou Juvenal em viagens a cavalo de Acari a Serra Negra, quando este ainda exercia o cargo de juiz de Direito. Posteriormente, já governador, Juvenal voltou a contar com a companhia de Possidônio em viagem de Acari a Natal, certa vez realizada também a cavalo, reafirmando a cumplicidade construída no sertão.

Ao morrer, Possidônio possuía as seguintes propriedades: Mutuca, Braz, Logradouro e Cajueiro. Também fora proprietário de parte do Bico da Arara, que vendera em vida ao senhor Gil Brito, área correspondente à antiga mina. Residiu muitos anos no Logradouro, no alto da serra, mas faleceu quando morava na Fazenda Cajueiro. Mantinha, ainda, casa na rua da Matriz, em Acari.

Casou-se duas vezes. A primeira esposa foi Dona Maria, filha de Teófilo Cortez. Após enviuvar, contraiu segundas núpcias com Inácia Maria de Araújo Costa. De nenhum dos dois casamentos nasceram filhos biológicos; entretanto, Possidônio, fiel ao costume sertanejo de adotar e apadrinhar, acolheu diversas crianças e jovens. Era homem de coração largo: muitos afilhados agregavam-se ao trabalho em suas terras, reconhecendo nele não apenas o padrinho, mas o guia, o protetor, o patriarca.

Somente no segundo matrimônio, ele e Inácia adotaram exatamente dezoito pessoas, número que impressiona e revela um modelo sertanejo de paternidade ampliada e solidária. Um detalhe notável e coerente com seu caráter: todos os filhos adotivos deveriam estudar. Para garantir isso, Possidônio mandou construir, na própria Fazenda Cajueiro, um pequeno grupo escolar, cujo salário da professora ele próprio pagou durante muitos anos, até que, na década de 1960, a prefeitura assumiu a manutenção da escola.

Quando ainda casado com Dona Maria, Possidônio adotara sua cunhada, Joana Benícia de Jesus, que ficara órfã. Joana, mais tarde, casou-se com Ananias Pedro dos Santos, filho de Joaquim Pedro, cujo túmulo repousa no Bico da Arara. Joana veio a ser a avó legítima do autor da memória aqui registrada; por isso, pelo lado materno, ele e as irmãs consideram-se como se fossem bisnetos de Possidônio — laço afetivo consolidado por convivência, criação e reconhecimento comunitário.

Essa relação genealógica-afetiva se adensa ainda mais: a mãe do autor, Terezinha, sobrinha e “neta” de Possidônio, casou-se com Carlos Braz de Araújo, irmão de Inácia e filho adotivo do casal Possidônio-Inácia. Desse modo, Carlos, que se tornara “Carlos de Possidônio”, herdou a Fazenda Cajueiro à morte do pai adotivo e cunhado. A propriedade seria posteriormente transferida, já em outras gerações, à família do Dr. Pedro Gonçalves.

Depois de enfrentar dificuldades financeiras, Carlos de Possidônio mudou-se para Minas Gerais, onde trabalhou dignamente, por mais de vinte anos, em uma fazenda de gado, até sua aposentadoria. Quando a família se reúne, revive com saudade os tempos sertanejos, quase “medievais”, em que tiveram, de fato, três avós, sendo que um deles acumulava os papéis de tio, avô e bisavô, além do honroso nome de Padrinho.

A fotografia que resguarda a imagem de Possidônio Avelino foi revelada em 1953. E, com esforço imaginativo — mas sem fugir à verossimilhança das tradições familiares — acrescentam-se outras memórias: o velho Possidônio foi tropeiro, conviveu com ciganos que se arranchavam em suas terras, criava mocós nos serrotes por apreciar sua carne, proibiu jogos de futebol no Cajueiro, tomava café com frequência e fumava, hábito que manteve mesmo contrariando recomendações do médico Dr. Odilon, até que sua prolongada doença cardíaca o levou ao fim natural da vida.

Todo esse relato, impregnado de vivacidade, gratidão e poesia da terra, foi preservado graças ao trabalho do escritor e professor da UFRN, Humberto Hermenegildo de Araújo — o conhecido “Humberto de Carlos de Possidônio” — que organizou e divulgou a memória deste homem singular, verdadeiro símbolo da cultura sertaneja do Seridó.






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