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1843

 


Do coronel José Bezerra de Araújo Galvão, da Aba da Serra, e de sua esposa Antônia Bertina de Jesus, procedeu a prole composta por Absalão Bezerra de Araújo, Auta Bezerra de Araújo, Francisca Xavier de Araújo, avó paterna do genealogista Fernando Bezerra Galvão, Izabel Bezerra de Araújo, conhecida como Biluca, Napoleão Bezerra de Araújo Galvão, o major Napoleão, Tereza Bertina Bezerra Salustino, casada com o desembargador Tomaz Salustino Gomes de Melo, Jeremias Bezerra de Araújo e Antônio Bezerra de Araújo. 

A data de 5 de fevereiro de 1926 assinalou o encerramento da trajetória terrena de uma das figuras mais emblemáticas do Seridó potiguar. Um século após sua morte, a evocação da memória de José Bezerra de Araújo Galvão ultrapassa os limites da recordação familiar e inscreve-se como marco decisivo na construção histórica e simbólica de Currais Novos. A celebração centenária de sua passagem não se resume ao culto nostálgico do passado, mas afirma-se como exercício consciente de preservação da memória coletiva, indispensável à coesão identitária de uma comunidade que reconhece, em seus líderes fundadores, referências morais e estruturantes. As homenagens prestadas, expressas em cerimônias religiosas e atos cívicos, renovaram o sentimento de pertencimento e reafirmaram o vínculo entre passado e presente, revelando que compreender a Currais Novos contemporânea exige o retorno ao período em que uma liderança firme foi chamada a transformar a instabilidade em ordem e permanência.

No final do século XIX, quando Currais Novos ainda figurava como distrito subordinado a Acari, o território encontrava-se mergulhado em um ambiente de conflitos recorrentes, marcados por disputas possessórias, esbulhos e tensões fundiárias que fragilizavam a incipiente ordem republicana. A passagem de um núcleo rural desagregado para uma municipalidade organizada demandava uma liderança capaz de conciliar autoridade e diplomacia, características próprias do sistema de alianças familiares que estruturava a sociedade sertaneja. Nesse contexto, a genealogia assumiu papel decisivo, pois foi no seio das relações de parentesco que se encontrou a solução para o vácuo de poder. A convocação de José Bezerra de Araújo Galvão por seu irmão, o Coronel Silvino, representou não apenas uma estratégia de pacificação, mas a restauração de um legado familiar cuja origem remontava ao Capitão-Mor Galvão, fundador primitivo da povoação.

A atuação de José Bezerra distinguiu-se pela combinação de firmeza e prudência. Sua mediação nos conflitos territoriais não se pautou pela repressão indiscriminada, mas por uma concepção de justiça restaurativa que buscava recompor o equilíbrio social por meio das chamadas penas educativas, mecanismo que privilegiava a conciliação e a ordem duradoura. Sua autoridade era reforçada por um carisma que a tradição oral revestiu de contornos quase míticos, atribuindo-lhe a capacidade de impor respeito pela simples presença, e por uma hegemonia territorial que se mostrou mais eficaz do que a distante burocracia estatal. A pacificação alcançada por sua liderança constituiu o alicerce necessário para a institucionalização do poder local e para a consolidação de estruturas administrativas permanentes.

No exercício da intendência municipal, José Bezerra foi o principal agente da organização do município recém-emancipado. Sua gestão ultrapassou os limites formais do cargo e orientou-se pela criação de uma infraestrutura capaz de assegurar a ordem pública e fomentar o desenvolvimento social e intelectual da população sertaneja. Amparado juridicamente por sua patente de Coronel da Guarda Nacional, concedida ainda no período imperial, sua liderança possuía respaldo moral e legal que lhe conferia autoridade singular na região. Durante seus mandatos, priorizou a organização administrativa, promoveu a construção da primeira cadeia pública, marco físico da presença do Estado, e introduziu iniciativas educacionais pioneiras ao instituir escolas rurais na região do Totoró, contratando os primeiros professores e reconhecendo a educação como instrumento essencial de progresso.

Apesar de sua projeção pública, José Bezerra manteve-se profundamente ligado à esfera privada da terra e da tradição. Sua trajetória reflete a opção consciente pela autonomia agrária em detrimento das vantagens oferecidas pelo centro político litorâneo. Ao recusar reiterados convites para cargos mais elevados na hierarquia estadual, reafirmou sua fidelidade ao Seridó e à Fazenda Aba da Serra, espaço que sintetizava sua identidade e sua visão de mundo. Essa escolha pode ser interpretada como gesto de resistência cultural e política, consolidando a imagem de um líder cuja autoridade transcendia títulos formais e se enraizava na relação direta com o território.

A Fazenda Aba da Serra permaneceu, ao longo das gerações, como epicentro simbólico da linhagem e do legado deixado por José Bezerra. O sentimento de apreço pela terra, transmitido a seus descendentes, revela a permanência de uma mística territorial na qual o líder se confunde com o espaço que administra e protege. Essa identificação profunda entre homem e chão foi decisiva para que sua figura se transformasse em ícone duradouro da identidade regional, capaz de atravessar o tempo sem perder vigor ou significado.

A monumentalização de José Bezerra na paisagem urbana de Currais Novos constitui expressão visível dessa memória coletiva. Os monumentos erigidos em sua homenagem não se limitam à exaltação estática de um personagem histórico, mas acompanham a evolução de seu papel no imaginário popular. Desde o busto erguido logo após sua morte, passando pela estátua inaugurada nas celebrações do sesquicentenário da cidade, até sua posterior transferência para um espaço de convivência popular, a presença do Coronel foi sendo integrada ao cotidiano urbano, assegurando que sua memória permanecesse viva e acessível às novas gerações.

O centenário de falecimento de José Bezerra de Araújo Galvão encerra, assim, um ciclo de cem anos de influência contínua sobre a formação social e institucional de Currais Novos. Ele foi o artífice de uma transição decisiva, convertendo um distrito convulsionado em uma cidade pacificada e próspera. As homenagens recentes, marcadas pela emoção dos descendentes e pela solenidade dos ritos públicos, simbolizam o respeito duradouro de uma sociedade que reconhece o valor de suas raízes. Seu legado não se restringe ao bronze das estátuas ou à denominação de logradouros, mas subsiste na honradez, no senso de justiça e na visão de futuro que continuam a inspirar o Seridó potiguar, cem anos após sua partida.

Na vastidão do Seridó, onde a geografia árida forja o caráter de seus habitantes, ergueu-se a figura monumental do Coronel José Bezerra de Araújo Galvão, o lendário Zé Bezerra da Aba da Serra. Nascido sob o signo da tradição em 18 de dezembro de 1843, na histórica Fazenda Ingá, em Acari, ele descendia dos primeiros desbravadores dos sertões norte-riograndenses, filho do Capitão Cipriano Bezerra Galvão e de Dona Tereza Maria de Jesus. Desde a juventude, sua compleição física — alta, robusta e vigorosa — parecia refletir a própria resistência da caatinga, destacando-se ele no manejo da terra, na equitação e na labuta das vaquejadas. Em 9 de janeiro de 1872, na Fazenda Bulhões, uniu seu destino ao de Antônia Bertina de Araújo, filha do Coronel João Damasceno Pereira, num consórcio que gerou treze filhos e fundou uma dinastia política e intelectual que marcaria profundamente o Rio Grande do Norte. Contudo, a viuvez o alcançou precocemente em 3 de dezembro de 1893; fiel à memória da esposa, jamais contraiu novas núpcias, sublimando a solidão na condução austera de sua família e de seu povo.

A trajetória política do patriarca entrelaçou-se com a história administrativa do país. Ainda sob o Império, em 1869, foi nomeado Capitão da Guarda Nacional em Acari. Sua liderança natural foi chancelada pelo Imperador Dom Pedro II, que, em Carta Patente de 16 de fevereiro de 1884, conferiu-lhe o posto de Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional da Comarca de Jardim, título que ostentou com fidalguia até ser reformado, já na República, pelo Marechal Floriano Peixoto em 1893. Tendo transferido sua residência da Fazenda Bulhões para a Fazenda Aba da Serra, em Currais Novos, no dia 30 de novembro de 1880, fez daquela propriedade o epicentro de seu poder. Ali, exerceu a Intendência Municipal em dois períodos — primeiramente em 1892 e, décadas depois, entre 1915 e 1916 —, governando não apenas com a caneta, mas com a autoridade moral de quem personificava a lei, o juiz e o delegado. Sua administração foi marcada pelo ordenamento urbano, através do decreto que nomeou logradouros públicos, e pela regulação do comércio, transferindo a feira para os sábados sob pena de multa e prisão aos infratores. Mais do que um gestor, revelou-se um visionário humanista: sensível à carência educacional, custeou do próprio bolso os vencimentos da professora Filaudelfia Filisberta de Carvalho, a "Velha Dona", garantindo o letramento dos desvalidos no distrito do Totoró, além de impulsionar a infraestrutura viária na estrada Natal-Caicó, rompendo com o governo estadual quando este falhou em honrar os compromissos com os flagelados da seca de 1915.

A mística em torno de Zé Bezerra transcendia os cargos oficiais, alimentada por um anedotário que comprovava sua força moral. Conta-se que subjugava a desordem apenas com a presença: certa vez, um homem embriagado e armado rendeu-se ao simples olhar do Coronel, seguindo a pé até a cadeia segurando o rabo de sua montaria; noutra ocasião, para garantir a paz num casamento, astuciosamente entregou as rédeas de seu cavalo a um cangaceiro, imobilizando-o na função de guardião do animal durante toda a festividade. Sua integridade era tamanha que enfrentou o governador Alberto Maranhão, recusando-se a realizar comícios após ser insultado como "Cangaceiro da Aba da Serra", mas garantindo, paradoxalmente, a vitória do opositor em seu reduto apenas pelo peso de sua palavra. Descrito por Pery Lamartine como uma "figura excepcional" pela gravidade e prudência, e chamado por Assis Chateaubriand de "divinamente telúrico" e "Matusalém riograndense", o Coronel encarnou o ideal do coronelismo protetor e ético, resolvendo litígios de terras e aconselhando casais com uma sabedoria que oscilava entre a praticidade e a ironia ferina. Faleceu em 5 de fevereiro de 1926, deixando a imagem derradeira de um ancião de barbas alvas e paletó de alpaca, apoiado em seu cajado de prata, cujo desaparecimento ecoou na imprensa nacional como o fim de uma era de dignidade sertaneja.

O texto acima foi construído com base na obra de Anderson Tavares de Lyra e nos relatos históricos preservados. 

 Cel. EZEQUIEL DE ARAÚJO FERNANDES  (1843/1904)  filho de Cosme Damião Fernandes (1979 - 1851) e de Isabel Maria de Araújo Fernandes (1802 - 1873).  Foi Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional da Comarca do Seridó e o primeiro Juiz de Paz. Casou com Tereza Maria Bezerra de Araújo, filha do Cel. Cipriano Bezerra Galvão e Izabel Cândida de Jesus.

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