Capitão JOSÉ SANCHO DE ARAÚJO (1858 -1920) Nos anais da historiografia do Seridó, a figura do Capitão José Sancho de Araújo (1858–1920) ergue-se como um patriarca de inegável relevo.
Descendia de tronco robusto, sendo filho de Félix de Araújo Pereira — o célebre Félix dos Garrotes — e de Maria Suzana da Annunciação (1822–1877).
José Sancho floresceu em meio a uma numerosa e distinta irmandade, partilhando o sangue e a história com Manoel Gregório de Araújo (1844–1918), Rita de Araújo Pereira (n. 1849), Anna Maria da Annunciação (1851–1893), Cândida das Mercês da Conceição (1853–1940), Francisco Raimundo de Araújo (1855–1940), Thereza Sancha de Araújo Pereira (1860–1877), Joaquim da Virgem Pereira (1864–1932) e Félix de Araújo Pereira Filho (1862–1937) — este último, o famoso "Maranganha". A esta lista soma-se ainda Fidélis de Araújo Pereira, cujas datas o tempo encobriu, mas de quem se sabe ter sido o esposo de Anna Militana da Silva.
O Capitão constituiu sua própria e vigorosa linhagem ao consorciar-se com sua prima, Maria Euzébia da Assumpção Brito. Matrona de nobre ascendência eclesiástica e social, era a segunda filha da união entre o Padre José Modesto Pereira de Britto (1818-1888) e Joaquina Gonçalves Cavalcanti (1842-1875).
Desse enlace nasceram os herdeiros: Napoleão Antão Pereira de Brito (1882–1950), Hermógenes Pereira de Araújo (1884–1954), Sóter Pereira de Araújo (1886–1963), a pequena Hosana Brito (1887–1888) e Maria Euzébia de Assumpção Brito (1889–1973). Cabe notar que, no desenrolar da sucessão familiar, Sóter Pereira de Araújo (1886–1963) herdou de seu avô, Félix Pereira, a histórica Fazenda Garrotes, alienando-a posteriormente a Basílio Ferreira da Silva (1867–1950) na transição da década de 1920 para a de 1930.
A memória visual do Capitão José Sancho sobrevive em um único e precioso registro fotográfico, capturado em 1919 durante uma viagem à capital, Natal. A imagem estática ganha vida através das descrições resgatadas pelo sertanista, Paulo Bezerra Balá, e detalhadas pelo historiador Jayme da Nóbrega Santa Rosa.
Fisicamente, José Sancho impunha presença: era alto, magro e de tez corada. Seu rosto, escanhoado com esmero, ostentava apenas um bigode imponente, à la barões do café, traço distintivo de sua época e classe.
Em espírito, revelava-se uma figura singular. Fazendeiro de temperamento crítico, dono de uma conversação por vezes irônica e mordaz, não era homem dado a desperdiçar tempo em praça pública; só ia à rua quando instado por negócios sérios e inadiáveis. Era, acima de tudo, um espírito organizado e criador. Em seus domínios, cada ferramenta, utensílio ou gênero alimentício possuía lugar cativo, reflexo de uma mente disciplinada.
O anedotário local preservou, entre a admiração e o espanto, as peculiaridades que compunham a figura do Capitão José Sancho. Comenta-se que, avesso aos modismos urbanos, ele fazia questão de cortar e coser a própria indumentária. Ternos de brim encorpado, talhados, sob a rústica geometria dos moldes de perneiras e gibões de couro, vestes típicas do vaqueiro seridoense.
O imaginário popular também dá conta de sua montaria de estima, um burro de porte avantajado, reservado exclusivamente para a sela. O animal era dotado de destreza ímpar, capaz de galgar pedregulhos na serra e vencer escadarias com a agilidade de quem conhece o terreno, sendo treinado, inclusive, para adentrar os recintos da casa-grande.
O burro mulo ostentava na fronte uma mancha branca, semelhante a uma estrela. Foi essa marca distintiva, aliada ao humor cáustico de seu dono, que lhe valeu o registro e a pomposa alcunha de "Doutor". A escolha do título não era gratuita, pois tratava-se de uma de suas finas ironias, um escárnio sutil dirigido aos adversários políticos e aos funcionários dos setores burocráticos da cidade, a quem o Capitão, em seu íntimo, considerava figuras de empáfia vazia.
O seu universo geográfico circunscrevia-se aos Garrotes, ao Saco dos Pereira e por fim, às Pinturas. É imperativo notar que o quinhão de terras que lhe coube no Saco dos Pereira adveio por intermédio de seu tio, o Padre José Modesto Pereira de Brito (1818–1888), irmão de sua mãe, Maria Suzana.
Recém-casado, fixou residência na antiga sede da Fazenda Saco dos Pereira; embora a localização exata tenha se perdido na névoa dos tempos, o consenso aponta que a morada se situava nas proximidades da casa de Orestes Pereira.
Posteriormente, o Capitão transferiu-se para a Fazenda Pinturas. Ali, ergueu um verdadeiro solar, o mesmo que viria a pertencer ao consagrado escritor Paulo Bezerra Balá. A edificação, uma das mais notáveis da região, foi construída a capricho sob a tutela de um mestre de obras espanhol, muito requisitado na época.
A casa das Pinturas, portanto, é ampla, dotada de porão e múltiplos cômodos. A arquitetura da casa projetada pelo famoso arquiteto espanhol refletia a hierarquia e a economia da fazenda, dispondo de uma sala reservada exclusivamente para os vaqueiros e um salão anexo destinado à fábrica de queijos, equipado com grandes giraus para o armazenamento da produção.
Assim viveu o Capitão José Sancho, entre a austera organização de seus bens e terras, perpetuando o legado dos Araújo e Pereira de Brito no sertão potiguar.
Sob o sol inclemente e majestoso do Seridó, na histórica Fazenda Umari, em Caicó, nasceu e foi batizado o Coronel Antônio Cesino de Medeiros, cuja existência, compreendida entre os anos de 1858 e 1926, marcaria profundamente a economia, a política e a sociedade norte-rio-grandense. Décimo primeiro rebento do Tenente-Coronel Francisco Antônio de Medeiros e de Dona Ana Vieira Mimosa, Antônio entrelaçou sua identidade à terra que o viu nascer, tornando-se conhecido pelas alcunhas de "Antônio do Umari" ou "Tonho do Umari", senhor de um vasto patrimônio fundiário que, além da propriedade sede banhada pelo Rio Barra Nova, incluía os sítios Curral Queimado e Culumins, em Caicó, e o Sítio Carrapateira, nas terras de São João do Sabugi.
O Coronel não foi apenas um homem de posse, mas um visionário de espírito empreendedor que, buscando alinhar o sertão aos avanços da Revolução Industrial, importou da Inglaterra um engenho de cana e uma máquina locomóvel para o beneficiamento do algodão; maquinário este que, embora hoje em repouso silencioso, permanece na propriedade como testemunho ferroso de uma era de ouro. A vida privada de Antônio Cesino, contudo, foi uma saga de perdas e renascimentos, pautada por três consórcios matrimoniais que resultaram em uma prole numerosa de dezesseis filhos, fundando uma das mais ramificadas árvores genealógicas da região.
O primeiro enlace deu-se em 27 de julho de 1886 com a jovem Ana Filgueira de Araújo Medeiros, de apenas dezesseis anos, cuja vida foi precocemente ceifada em 1892, deixando ao viúvo os filhos Ana Filgueira de Araújo Medeiros — que perpetuaria a linhagem ao casar-se com o primo Lídio Florentino Lins de Medeiros —, Antônio Cesino de Medeiros Filho, a pequena Francisca, falecida na infância, e José Inácio Neto. Buscando reconstruir o lar, o Coronel contraiu segundas núpcias em 13 de setembro de 1893 com Ana Amélia de Araújo Medeiros; todavia, o destino impôs-lhe nova viuvez em 1902, quando a esposa faleceu aos vinte e sete anos. Desta união, nasceram sete filhos, entre os quais figuras de notável relevo: João Perício de Medeiros; a vanguardista Júlia Augusta de Medeiros, educadora, intelectual, fundadora do "Jornal das Moças", vereadora e a primeira mulher a conduzir um automóvel no Seridó; e Severina Dantas de Medeiros, matriarca que daria ao mundo o renomado historiador e genealogista Olavo de Medeiros Filho.
Ainda deste segundo matrimônio, destacam-se Julieta de Medeiros Dantas, que ao lado de Joel Adonias Dantas gerou uma vasta descendência composta por Belisário, Mariano, Antônio, Rosilda, Aldina, Inês, Alaíde, Maria Julieta, Enedina, Elsa, Ivone, Ivete, Joel Filho, Luso, Ana Amélia e José Joel; além de Maria Cândida de Medeiros Camboim, Severina de Medeiros Nóbrega, Zozina de Medeiros Araújo e Natália Neomísia de Medeiros Correia, cuja filha, Miradalva Correia de Trejos, projetou o nome da família internacionalmente como autoridade em Antologia na Costa Rica. Por fim, em 31 de janeiro de 1903, o patriarca uniu-se a Otávia Benigna de Medeiros, companheira longeva que lhe sobreviveu até 1958, e com quem teve Elói Cesino de Medeiros, pai de filhos que brilharam em diversas partes do Brasil; a devota Luzia Benigna, a Irmã Francisca das Filhas do Amor Divino; os gêmeos Iria e João Cesino, este último aclamado como o "Rei da Caatinga" por sua expertise eco-turística; e Otávia Benigna, esposa do prefeito caicoense José Benévolo Xavier, consolidando assim, através de gerações, a influência indelével dos Medeiros na tessitura histórica do Seridó.
Coronel Cesino de Medeiros: Vida e Descendência no Seridó
Coronel Antônio Cesino de Medeiros, um influente membro da Guarda Nacional de Caicó, no Rio Grande do Norte. A biografia detalha sua importância na economia, política e sociedade de sua época, notavelmente como proprietário da Fazenda Umari, onde mantinha equipamentos industriais importados da Inglaterra. Grande parte do documento é dedicada ao registro de seus três casamentos e à vasta descendência de dezesseis filhos, que tiveram grande impacto na região do Seridó. O texto destaca a trajetória de alguns de seus filhos e netos, incluindo a educadora Júlia Augusta de Medeiros e o renomado historiador Olavo de Medeiros Filho, ilustrando a profunda influência e a complexa rede familiar dessa linhagem.

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