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1855

             Porphíria Alexandrina de Jesus, nascida em 1855 e falecida em 1892, pertencia a duas das mais tradicionais linhagens do Seridó oitocentista. Era filha do Coronel Cipriano Lopes Galvão e de Ana Marcolina de Jesus — a célebre “Aninha do Ingá” —, mulher de perfil marcante na memória regional e irmã do notável Padre Thomaz Pereira de Araújo. Por essa via materna, Porphíria carregava não apenas a tradição das antigas famílias sertanejas, mas também o peso simbólico de um nome que atravessara gerações: chamava-se exatamente como sua tia, Porphíria Alexandrina de Jesus, irmã do Padre Thomaz e do Coronel João Damasceno Pereira de Araújo.

O nome, repetido como quem perpetua uma herança espiritual e familiar, tornava-a também homônima de sua futura sogra, igualmente chamada Porphíria Alexandrina de Jesus — esta a esposa de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior e mãe de seu futuro marido. No universo patriarcal dos sertões, onde a continuidade dos nomes revelava vínculos profundos e reafirmações de linhagem, o caso de Porphíria é exemplar: ao casar-se, carregou consigo a coincidência curiosa de trazer o mesmo nome da mãe de seu esposo, acrescentando apenas o sobrenome do marido após o enlace.

Porphíria uniu-se ao Tenente-Coronel Antônio Pires de Albuquerque Galvão — conhecido na genealogia familiar como Antônio Pires de Albuquerque Galvão (Terceiro) —, descendente direto de uma das casas mais antigas e influentes do Seridó. Ele era filho de Antônio Pires de Albuquerque Galvão Júnior (Segundo) e de sua mãe, também chamada Porphíria Alexandrina de Jesus, reforçando a trama onomástica que marcou aquela geração.

Dessa união matrimonial nasceu uma prole numerosa, como era característica dos grandes troncos familiares do sertão, cujos nomes se tornariam, mais tarde, conhecidos em Acari e em toda a região: Enéas Pires Galvão, Cipriano Pires Galvão, Antônio Pires Galvão, José Pires Galvão, João Deão Pires Galvão, Leônidas Pires Galvão, Francisco Elviro Pires de Albuquerque Galvão, Horácio Pires Galvão, Terezinha Pires Galvão e Ana Pires Galvão.

Cada um desses filhos herdou, à sua maneira, o legado dos clãs Galvão, Araújo, Pires e Medeiros — famílias que estruturaram a vida social, política e econômica do Seridó. A história de Porphíria, marcada pela perpetuação de nomes, pela duplicidade simbólica entre tia e sogra, e pela união de linhagens antigas, sintetiza de forma sensível a dinâmica genealógica sertaneja, onde tradição, repetição e memória se entretecem como fios de um mesmo tecido ancestral.

Assim se perpetua a imagem de Porphíria Alexandrina de Jesus: mulher inserida nas redes profundas da história familiar seridoense, elo entre duas Porphírias que a antecederam e mãe de dez vidas que se projetariam para além do seu tempo, fixando para sempre seu nome no vasto mapa da genealogia do Seridó.



 FRANCISCO RAIMUNDO DE ARAÚJO (1855/1940) Considerado o sábio do Seridó, surpreendeu o mundo com a criação do Algodão Mocó através da seleção natural. Francisco Raimundo de Araújo, nascido na Fazenda Garrotes, município de Acari, em 6 de janeiro de 1855, foi uma figura notável em sua região. Filho de Felix de Araújo Pereira ("Felix dos Garrotes") e Maria Suzana da Anunciação, ele faleceu em Acari, onde foi sepultado em 17 de abril de 1940, aos 85 anos.

Francisco estudou na cidade de Exu, Pernambuco, sob a tutela de seu tio, o Padre José Modesto Pereira de Brito. Ao retornar à Fazenda Garrotes, revelou-se um talentoso artesão na arte da ferraria, fabricando de forma rústica todo tipo de ferragens. Segundo um documento no arquivo da Prefeitura Municipal de Acari, ele foi o responsável por confeccionar toda a ferragem – incluindo pregos, dobradiças, ferrolhos, fechaduras e grades de ferro – do prédio da Casa de Câmara e Cadeia de Acari, hoje Museu Histórico.

Como proprietário da Fazenda Água Doce, Francisco foi pioneiro na região ao iniciar uma plantação de cana de açúcar e montar um engenho para industrializar a produção, transformando-a em rapadura, mel e aguardente. Seu espírito inventivo e progressista o levou a ser eleito intendente de Acari de 1906 a 1910, período em que realizou uma série de melhoramentos na cidade.

Além de suas habilidades na ferraria e na agricultura, Francisco foi um dos pioneiros seridoenses na pesquisa de melhoramentos do algodão mocó, buscando criar variedades mais produtivas e resistentes às condições ambientais. Seu trabalho atraiu a atenção de Arno Pearse, uma autoridade no assunto que o qualificou como "sábio empírico". Francisco forneceu sementes cuidadosamente selecionadas aos técnicos de Bulhões, em Acari, e à Estação Experimental em Cruzeta.

Sua inteligência e conhecimento prático foram tão reconhecidos que, em 1920, ele orientou o engenheiro Mendes da Rocha sobre o melhor local para a construção do açude de Cruzeta. Mais tarde, também foi consultado para definir o local e o traçado urbanístico da povoação de Cruzeta.

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