Major Benvenuto Pereira de Araújo (1860-1958): Genealogia e Atuação Pública
Benvenuto Pereira de Araújo assumiu a Intendência de Currais Novos em 1º de outubro de 1906, após ser eleito e empossado para o cargo. Homem de reconhecida modéstia e espírito público, iniciou sua gestão em meio a um grave conflito na Serra de Santana. Por determinação legal, a região era considerada zona agrícola, e os lavradores, em sua maioria negros, pagavam o dízimo de suas colheitas, constituindo uma das principais fontes de receita municipal. Contudo, o gado pertencente a poderosos fazendeiros do sertão invadia e destruía as plantações, causando prejuízos e fomentando disputas que, por vezes, resultavam em mortes.
Determinado a enfrentar o problema, Benvenuto dirigiu-se pessoalmente à Serra de Santana, onde, em reunião realizada em Panelas, ouviu os agricultores e buscou soluções conjuntas. Questionados sobre a melhor forma de conter os prejuízos, os lavradores sugeriram o cercamento da área. De imediato, o intendente comprometeu-se a iniciar o trabalho no dia seguinte, contratando os próprios agricultores para a construção das cercas, fornecendo-lhes o arame e efetuando o pagamento aos domingos. A medida obteve êxito, pacificando a região e pondo fim ao conflito ainda no mesmo ano.
Para o historiador Celestino Alves, tal iniciativa consolidou Benvenuto como um dos maiores administradores que Currais Novos já teve, ao resolver o maior problema de sua época. Tanto que Celestino chegou a propor, sem sucesso, a mudança do nome da Praça Tomaz de Araújo para Praça Benvenuto Pereira, como forma de homenageá-lo. Durante sua gestão, que se estendeu até 31 de dezembro de 1910, também foi erguido o monumento Centenário. Embora financiada por uma campanha conduzida pelo jornal A Voz Potiguar, sob a direção de Ulisses Telêmaco de Araújo Galvão e Vivaldo Pereira de Araújo, a obra contou com o apoio e a colaboração administrativa de Benvenuto, que conduziu o município com probidade e dignidade.
Nascido em 1860, o Major Benvenuto Pereira de Araújo faleceu em 1958, deixando um legado político e social significativo no Seridó. Sua linhagem patriarcal remonta ao português Thomaz de Araújo Pereira (1701-1781), natural do Minho, um dos pioneiros a se estabelecer no sertão potiguar. Era filho de Thomaz de Araújo Pereira Júnior, o “Thomaz Bengala” (1830-1862), e de Ritta Regina Maria Miranda de Albuquerque (1840-1910). O genealogista João Felipe da Trindade observa que a origem de “Thomaz Bengala” permanece um mistério, embora haja indícios de ligação com a família Thomaz de Araújo Pereira de São Gonçalo do Amarante.
No campo familiar, Benvenuto uniu-se a Ana Isabel de Medeiros Galvão, conhecida como “Aninha”, filha do Capitão Laurentino Bezerra de Medeiros Galvão e de Teresa Ursulina de Jesus. O casal teve onze filhos, cujas descendências se entrelaçaram com outras famílias tradicionais da região, como os Galvão e os Pires de Albuquerque. Apesar de a família Pereira de Araújo de Acari não ter formado troncos expressivos em Currais Novos, conforme aponta Celestino Alves, a descendência de Benvenuto — especialmente por meio de seu filho Tomaz Pereira de Araújo — perpetuou o sobrenome na história local.
A genealogia de Benvenuto apresenta detalhes curiosos. O historiador Anderson Tavares de Lyra destacou um assento de casamento de Rita Regina de Miranda, mãe do major, datado de 30 de setembro de 1869, referente a seu segundo matrimônio com Manoel Pires de Albuquerque Galvão, celebrado na Freguesia de Santa Rita da Cachoeira, em Acari. O documento menciona uma dispensa de parentesco por afinidade, pois a bisavó materna do noivo era irmã do provável avô paterno de “Thomaz Bengala”. Essa peculiaridade evidencia a complexa rede de relações familiares que permeou o desenvolvimento histórico e social do Seridó.
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