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1898


 MARIA ELISA PEREIRA DE ARAÚJO (1898/)  filha de Manoel Petronillo Pereira de Araújo. Casou com Celso Freire de Paiva.  


FRANCISCO GODOFREDO PIRES GALVÃO (1898 - 1984)

 , filho de João Alfredo de Albuquerque Pires Galvão e Cecília Celestina  de Oliveira, neto materno de Cândido de Oliveira Mendes e Laurinda Bezerra de Vasconcelos. ARTEMIZIA AUGUSTA DE VASCONCELOS (25/01/1898 -  01/08/1981) filha de Manoel Lopes de Vasconcelos Galvão e Teodora  Cândida de Albuquerque. 




MIGUEL DA COSTA CIRNE Nasceu em Jardim do Seridó, mais precisamente no Sítio Pedra Grande daquele lugar aos 13 de Setembro de 1898, tendo como Avós Paternos Manoel da Costa Cirne e Jovelina Petronilla de Maria, e Avós Maternos Miguel Fernandes de Medeiros e Amélia Felinta da Conceição. Herdando portanto o primeiro nome de seu avô paterno, o pequeno Miguel foi batizado na Matriz de Nossa Senhora da Conceição doze dias após seu nascimento, em 25 de Setembro de 1898, pelo Padre Luís Marinho de Freitas, e selando como seus padrinhos Manoel da Costa Cirne e Anna Ermelinda da Costa. Seguindo uma vida normal, em um Jardim quase todo rural, Miguel conhece uma jovem por nome Mariana, por quem enamora-se e vem a contrair núpcias. A primeira foi em 07 de Fevereiro de 1923, na residência de Joaquim Simões, onde Miguel da Costa Cirne e Mariana Francisca Dantas se receberam em matrimônio, testemunhados por Antônio Santos Araújo e José Celso de Araújo, e assistido pelo então Pároco de Jardim do Seridó o Cônego Amâncio Ramalho. A segunda foi em 17 de Fevereiro de 1923, no Sala de Audiências do Jardim que funcionava no andar superior da Casa de Câmara e Cadeia, em presença do Juiz Districtal em exercício Manoel Lúcio de Araújo, do Escrivão Antônio Antídio de Azevedo e das testemunhas Manoel Martiniano de Medeiros e Sandoval Cunha. Mariana Francisca Dantas havia nascido em 16 de Março de 1905, filha de Joaquim de Araújo Pereira e Maria Francisca Dantas, ele nascido em 23 de Maio de 1872, e ela em 02 de Dezembro de 1871. Mariana foi batizada pelo Padre Marcellino Rogério Freire, em 09 de Abril de 1905, tendo como padrinhos Ricardo José de Azevedo e Francisca Marcellina d’Araújo. Faleceu em Jardim do Seridó aos 18 de Março de 1995 aos 90 anos de idade, sendo sepultada no cemitério público da cidade.
Da união de Miguel e Mariana foi possível encontrar o nascimento de 10 filhos:
1. Maria Amélia da Costa, nascida em 23 de Outubro de 1923
2. Annita Maria da Costa, nascida em 09 de Outubro de 1924
3. Jayme da Costa Cirne, nascido em 11 de Novembro de 1925 (contraiu núpcias com Francisca de Azevedo Cirne em 11 de Fevereiro de 1959)
4. Joaquim da Costa Cirne, nascido em 12 de Maio de 1928
5. Ignácio Dantas Cirne, nascido em 02 de Novembro de 1930
6. Geraldo da Costa Cirne, nascido em 13 de Novembro de 1931
7. Antônio da Costa Cirne, nascido em 12 de Junho de 1934, e falecido em 31 de Dezembro de 1934
8. Orlando da Costa Cirne, nascido em 30 de Agosto de 1936, e falecido em 15 de Maio de 2019
9. Almir da Costa Cirne, nascido em 24 de Novembro de 1937
10. Maria das Graças da Costa Cirne, nascida em 24 de Abril de 1948 (contraiu núpcias em Lailton Azevedo em 06 de Novembro de 1970)
Para sustentar a família, Miguel Costa como era conhecido usou da agricultura e da pecuário no início, e adquirindo posses, chegou a comprar um carro, que usava para prestar serviços para a Prefeitura de Jardim do Seridó, onde anos depois havia de ser nomeado servidor público. Consolidando sua carreira é possível encontrar duas grandes funções que exerceu na sua cidade natal. A primeira é encontrada no Jornal “A ORDEM” publicado na cidade do Natal em data de 08 de Novembro de 1935, onde em juntamente com Jesuíno de Azevedo Netto e Pedro da Costa Cirne, nomeado ele 1° Suplente de Delegado, e os demais 2° e 3° respectivamente.
Em 22 de Janeiro de 1938, na gestão do Sr. Pedro Izidro de Mederios, foi nomeado Fiscal Geral do Município, cargo que havia trabalhado algumas vezes, porém nunca com oficialidade.
Não obstante, sua vida pública girava junto com a política, tanto que na década de 70 filiou-se à ARENA (Aliança Renovadora Nacional) ao lado de personalidades como Dr. Paulo Gonçalves, Jandovy de Medeiros Brito, e muitos outros. Durante algum tempo também foi Coveiro (apenas por assinatura) uma vez que seu Primo Júlio da Costa Cirne (Júlio de Cristino), filho de seu Tio Christiano da Costa Cirne não sabia escrever. Miguel Costa vem a falecer anos depois aos 89 anos, em 21 de Agosto de 1988.
Seu prestígio, e seus serviços públicos pela cidade de Jardim do Seridó renderam-lhe a homenagem póstuma na Praça do bairro Bela Vista, lugar onde deixou as mais belas amizades, e boa parte de sua família.
Honrosamente, e para a eternidade, a única praça daquele bairro leva o nome imponente de um filho ilustre, que merece ser preservado, MIGUEL DA COSTA CIRNE.

O NOME DA PRAÇA MIGUEL COSTA
Nos últimos dias com os ânimos aflorados pela possível reforma da Praça do bairro Bela Vista, surgiu a dúvida do nome daquele espaço, que muitos conhecem, mas poucos sabem. Nas entrelinhas da história este texto traz visibilidade à um personagem Jardinense que o tempo estava tratando de esquecer. Em 31 de Dezembro de 1896, quando era Juiz Districtal o Coronel José Thomaz de Aquino Pereira, e em presença deste, bem como de Francisco Freire de Araújo Pereira e Francisco Pedro Dantas, e do escrivão Florentino de Azevedo Cunha, receberam-se em matrimônio Salustiano da Costa Cirne e Januária Maria da Conceição. Ele era agricultor e contava 20 anos de idade, tendo nascido em 08 de Junho de 1876, ela de serviços domésticos tinha 16 anos, tendo nascido em 06 de Fevereiro de 1880. Deste consórcio amoroso, que não durou muitos anos por motivo de morte de Dona Januária em 12 de Dezembro de 1922, nasceram 17 filhos: Maria, Miguel, Manoel, Antônia, Amélia, Júlia, João Tereza, Ana, Silvio, José, Silvino, Lauro, Tereza (a segunda com o mesmo nome), Martha, Mário, e Francisco. A partir de agora trabalharemos somente sobre o SEGUNDO filho do casal Salustiano e Januária.
 
Texto: Prof° Gabriel Santos
Fontes: Registros Paroquias, Registros Cartoriais, Jornal “A Ordem”, Ficha do funcionário municipal, Ata de filiação do Partido Arena.
Foto: Ficha do Funcionário Municipal de Jardim do Seridó

Bisavós maternos de Romeu Dantas, Josefa Julieta de Medeiros - Dona Pepita (1902-1985) e Raymundo Lucas de Medeiros (1898-1976).





Felinto é uma figura que nos enche de orgulho, lembrando-nos de que, se a luz está disponível para todos, o brilho é fruto de dedicação e esforço de cada um.

Desde criança, Felinto Lúcio Dantas aprendeu com os pais os segredos da agricultura, e desenvolveu um profundo amor pela terra, acreditando que, cuidando dela, também estaria tratando de si mesmo. A terra lhe deu tudo: alimentação e ensinamentos e, nela, trabalhou até seus últimos dias.

Nasceu em família numerosa, em Carnaúba dos Dantas/RN, em 1898, fazendo ali a sua morada, e do sertão, a inspiração.

Além da terra, a sua paixão era a música.

Sua vocação musical despertou ao assistir, com a banda filarmônica de Acari/RN, aos ensaios das músicas de seu primo Tonheca Dantas (1871-1940), compositor, dentre grande produção musical, da valsa Royal Cinema, entusiasticamente aplaudida no Brasil e no Exterior.

Felinto começou, como relatou em entrevista, “como todo mundo, tocando um instrumento, depois dirigindo banda e, consequentemente, regendo-a, até chegar a composição”, mas, segundo ele, “nunca fiz nada que prestasse dentro dessa coisa toda”.

Simplicidade à parte, Felinto foi grande em toda a música que fez, reconhecido no Seridó, no Rio Grande do Norte, no Brasil e no mundo. Um gênio mesmo.

Com dinheiro suado da pequena agropecuária, Felinto pagou aulas com Pedro Arboés, professor de música da região. Aprimorado o seu talento, não tardou para trilhar o caminho da composição.

A primeira composição fez aos 17 anos, o dobrado “Estreia”; a última, aos 88 anos, a valsa “Delzira Maria Dantas”, homenagem a sua segunda esposa. Nesses 71 anos dedicados à música, construiu uma obra surpreendente, composta por 83 dobrados, 42 valsas, 36 obras sacras, 12 marchas, 9 hinos, 4 mazurcas, 4 choros.

A música sacra de Felinto Lúcio era diferenciada. Compôs hinos, missas e novenas, destacando-se inúmeras partes dessas obras da liturgia católica, tais como: “Pai-Nosso”, “Ave-Maria”, “Gloria”, “Credo”, “Agnus Dei”, “O Salutaris Hostia”, “Kyrie”. São composições que iluminam corações e fortalecem a aproximação com o divino: melodias envolventes, em músicas que transmitem fé e suscitam adoração.

Suas músicas deixaram o sertão do Seridó para ganhar notoriedade nos grandes centros do Brasil, como Rio de Janeiro, e mesmo da Europa.

Sua música “Quinta Novena” foi executada na missa celebrada pelo Papa São João Paulo II, em 1997, na Catedral do Rio de Janeiro.

Recentemente, no dia de Corpus Christi de 2021, foi cantado no Vaticano um Tantun Ergo, de Felinto Lúcio, tradicional hino eucarístico sobre a letra de São Tomás de Aquino, de 1264. Um outro seu “O Salutaris Hostia” também foi ouvido há pouco tempo no altar da Cátedra da Basílica de São Pedro, por ocasião da novena do Apóstolo.

Esse Tantum Ergo Felinto Lúcio compôs “em 1957 em latim, para duas vozes. Comumente as suas obras sacras eram escritas para que duas de suas filhas cantassem durante a missa. Sua introdução foi inspirada no canto do pássaro Anu-branco”

(periodicos.unespar.edu.br – O plantador de sons).

No sertão do Seridó, a beleza verdejante da natureza se une à transcendência da música sacra de Felinto Lúcio Dantas, criando um cenário de encanto e devoção.

Outro tipo de música ao qual Felinto se dedicou foram as valsas. Compôs várias delas, como, por exemplo, “Culpa e Perdão”, “Adélia”, “Lúcia Dantas”, “Ana Dantas”, “Teresa Maia”.

Em 1978, por iniciativa do MOBRAL, lançou em um LP duplo algumas de suas obras, contando com a participação de grandes músicos do cenário nacional, sob a coordenação do maestro Radamés Gnattali, grande artífice da aproximação da música erudita e popular no Brasil. Em Natal, o lançamento desse álbum ocorreu no Palácio do Governo, em cerimônia solene, patrocinada pelo então Governador Tarcísio Maia, seu admirador. Com esse evento, o compositor se tornou mais conhecido em todo Estado e no País.

Como lembra o poeta e ex-professor universitário Francisco de Sales Felipe, a quem Felinto Lúcio dedicou, em 1978, a marchinha Sales, suas músicas exalam espiritualidade e emoção, tocando profundamente a alma de quem as ouve. “É um Deus da música!”

Para atender ao público da região, Felinto compôs também muitos dobrados para as bandas locais, peças que se ouvem frequentemente ainda hoje, geralmente em solenidades, às vezes desconhecendo os ouvintes e mesmo os músicos quem é o admirável compositor. Dentre tantos, citam-se “Mobral 59”, “Caetano Dantas 58”, “Paulo Lúcio Dantas 55”, “Flávio Lúcio Dantas 57”.

A sua inspiração era a terra. Não compunha no luxo de vivendas ou gabinetes, mas, em sua maioria, trabalhando nas suas lavouras, a sol a pique, fazendo, muitas vezes, do cabo de sua enxada o seu lápis, rabiscando as notas musicais na areia do Rio Carnaúba. Só depois passava para o papel, pois a natureza era sua escola, como costumava dizer.

Felinto Lúcio buscava preservar as tradições musicais do sertão, mantendo vivas as raízes e os valores culturais da região. Compunha para aquela realidade cultural, para o coro da igreja, as bandas locais. O hino da cidade de Carnaúba dos Dantas é de sua autoria, e é a prova disso.

A Banda Filarmônica de Acari/RN, da qual passou a ser regente em 1920, atualmente tem seu nome. No largo em frente da sede da banda, está estátua sua, obra do artista Guaraci Gabriel, e iniciativa da Prefeitura Municipal, na qual Felinto exerceu o cargo de secretário de 1944/1968, com relevantes serviços prestados.

O Governo do Estado do Rio Grande do Norte ofereceu a Felinto Lúcio, em 1986, medalha da ordem do mérito no maior grau, tendo-lhe também prestado homenagens a UFRN e o IFRN.

Felinto Lúcio faleceu em 1986, deixando saudade aos amantes da melhor música. Teve 30 filhos, sendo 14 com a primeira esposa, Antônia Jacinta de Medeiros, e 16 com a segunda, Delzira Medeiros Dantas. Todos homenageados em sua obra.

Felinto Lúcio Dantas, “um plantador de sons”.

Seu talento e paixão pela música são evidentes em cada nota, levando os ouvintes a uma experiência transcendental. E, ao compartilhar sua música sacra, espalhou luz e inspiração por todo o Rio Grande do Norte, conectando as pessoas com o sagrado, e confirmando sua espiritualidade.

Fontes:

Fundação José Augusto (Adecon)

Revista do Galo, n. 5, p. 31–42, 1 maio 2022

Canal do YouTube- Presto Música de Victor Dantas

Tribunal do Norte, 4/6/2021

Francisco de Sales Felipe (Em conversas de alpendre)

TVU – Memória Viva – Felinto Lúcio – 1982O Prodígio do Sertão: Memória de Felinto Lúcio Dantas Na paisagem árida do Alto Sertão seridoense, em Carnaúba dos Dantas, floresceu um dos mais singulares e misteriosos talentos musicais do Brasil: Felinto Lúcio Dantas. A sua trajetória, capturada em um depoimento-entrevista de 1982, revela a figura de um gênio autodidata, um homem cuja vida e obra se entrelaçam com a própria terra que o formou, um "homem sertanejo" que, até os 82 anos, dividiu sua genialidade musical com a lida diária na lavoura.

Sua infância foi a de um "menino pobre", marcada pelos banhos de açude e pelo auxílio ao pai no roçado. Aos 13 anos, ainda analfabeto, Felinto selou um pacto singular para aceder ao mundo das letras: para cada letra do alfabeto que lhe era ensinada, desenhada na areia do rio, ele pagava com três baldes de areia para o preparo da vazante. A natureza, como ele mesmo afirmava, foi a sua "escola", e a pá, sua "professora". O leito seco do rio, que lhe serviu de "quadro negro" para a alfabetização, tornaria a ser, décadas mais tarde, o cenário de seu assombroso processo criativo.

O despertar para a música ocorreu em 1915, com as primeiras lições de seu primo, Pedro Arbués Dantas. Contudo, o ponto de virada deu-se em 1917, ao ouvir a valsa "Royal Cinema", de outro primo, Tonca Dantas. A canção o inspirou a tal ponto que o levou a compor sua primeira peça, o dobrado "Estreia". O aprendizado inicial foi rústico, em um clarinete artesanal feito de madeira de "Pereiro". Com um instrumento adequado, adquirido com a ajuda da mãe, em dois meses já dominava a valsa que o inspirara, e em 1920, já assumia a maestria da banda de Acari.

O que define Felinto Lúcio Dantas como um fenômeno, no entanto, é o seu processo de composição, descrito por Dom José Adelino Dantas, profundo conhecedor de sua obra, como um "prodígio raríssimo" e um "processo misterioso". Felinto realizava a totalidade de sua criação — composição, harmonização e orquestração — inteiramente de forma mental.

Sua rotina era um ritual: acordava por volta das 3h30 da manhã e, após um café simples, caminhava 3.360 metros (distância que mediu contando os passos) até seu roçado. Nessa jornada de quase 7 quilômetros diários, na escuridão da madrugada, ele realizava um "monólogo sonoro", cantarolando e desenvolvendo as ideias musicais. Ao chegar ao Rio Carnaúba, sentava-se na areia e ali, onde aprendera o alfabeto, concebia a "solfa sonora" ou a frase melódica. Retornava para casa solfejando, para memorizar, e então, sentado à sua janela, transcrevia as notas para a pauta com uma caligrafia "primorosa", "miúda e equilibrada".

O aspecto mais extraordinário, como ressaltava Dom Adelino, é que Felinto jamais necessitou de um piano, harmônio ou qualquer instrumento para testar os acordes ou verificar as harmonias. Ele simplesmente concebia a obra pronta, orquestrada para todos os instrumentos da banda, em sua mente. "Eu gostaria que alguém me dissesse isso, porque eu não sei de onde vem isso", confessou o próprio compositor. "Sei que faço, faço isso tudo mentalmente."

Sua obra evoluiu dos gêneros populares para o sacro. Tendo se inspirado na "Royal Cinema", Felinto a superou em complexidade com sua própria valsa, "Teresa Maia", dedicada à esposa do então governador Tarcísio Maia, e considerada por Dom Adelino superior "em riqueza de arte, acordes e variedade musical". Sua genialidade harmônica era notável, sendo um mestre no uso de acordes complexos e raros, especialmente o da "sétima diminuta".

Após compor vastamente dobrados, schottisches e maxixes, como a popular valsa "Culpa e Perdão", Felinto voltou-se ao divino. Sua primeira obra sacra foi uma "Ave Maria", e o resultado o incentivou a produzir um vasto repertório, incluindo treze ladainhas completas e diversas missas, como a Missa de Santa Cecília e a Missa de Nossa Senhora da Guia.

Apesar da complexidade de sua música, o homem Felinto era "meio indefinível", "excêntrico" e de uma humildade quase desconcertante, que beirava a autodepreciação. "Nunca fiz nada que prestasse", costumava dizer, chegando a definir-se como "um trapo humano". Dom Adelino, contudo, ponderava essa visão: "É o melhor dos homens, o mais delicado, educado, fino. É um homem de cultura, ele lê muito e pergunta muito". Sua rotina incluía o trabalho no roçado até as nove da manhã e, à tarde, a leitura de livros "bang-bang" (westerns).

Demonstrava total desapego à própria obra, afirmando não gostar de ouvir suas músicas, e jamais compôs visando lucro: "Nunca recebi dinheiro por composição". Questionado sobre o volume de sua produção, respondia evasivamente: "não sei que tem mais de 100, menos de mil aí eu sei".

Esse talento extraordinário, conhecido apenas regionalmente por décadas, ganhou projeção nacional em 1974, quando o Mobral, por intermédio da coordenadora Lina Guerra, reuniu suas partituras esparsas e organizou a gravação de um disco no Rio de Janeiro. Felinto Lúcio Dantas permaneceu, contudo, fiel à sua essência, um gênio sertanejo que não compreendia a própria genialidade, um homem para quem a música simplesmente vinha "do ar", tão natural e tão vital quanto a terra que ele cultivava.

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